O Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas — #DEXCONF19

Palestra da Samille Sousa apresentada na Design & Experience 2019 (#DEXCONF19) que aconteceu nos dias 26 e 27 de julho na Bienal São Paulo.

Samille Sousa apresentando a palestra “O Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas” na #DEXCONF19

Seguindo a nossa série de posts com os conteúdos apresentados na #DEXCONF19, venho trazer o podcast + transcrição da palestra “O Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas” com a Samille Sousa, que é consultora especialista em Pesquisa com usuários.


Para aprender e trabalhar com pesquisa em design, inscreva-se na Formação em UX Research da Mergo: mergo.com.br/formacao-ux-research


https://soundcloud.com/dexconf/o-lado-b-de-ser-uma-pesquisadora-em-diferentes-culturas

[Início da transcrição]

Samille Sousa: Bom, eu sou a Samille Sousa e estou bem feliz estar aqui. É sempre bom compartilhar coisas com a comunidade, com pessoas diferentes… Ainda mais eu, que vivo circulando em tantos lugares. Então, agradeço desde já a partilha e, principalmente, o tempo de vocês de estarem aqui para dedicar, né, a atenção para ouvir algumas histórias que eu tenho para contar.

Bom, a primeira coisa é que eu gosto muito de separar esse ser e estar e usar esse privilégio da nossa língua portuguesa. Então, sempre falo que eu sou Samille e eu estou desde 2009 sendo pesquisadora, consultora e trabalhando com “contação” de histórias. E esse ano, 10 anos depois, e principalmente olhando para toda a minha carreira, no início do ano eu passei de fevereiro, março até, mais ou menos, maio, eu fui diagnosticada com processo depressivo muito alto e muito intenso, e aquilo me culpou muito, me gerou muitas culpas porque eu sou pesquisadora. Como que uma pesquisadora vai ter problema emocional, se vou ter que lidar com todo mundo falando das suas emoções, dos seus comportamentos? E aí, nesse momento, na verdade, eu primeiro fui procurar tratamento, né. Estou em tratamento, mas eu quis procurar um tratamento alternativo — vou falar disso um pouco mais adiante, porque tem tudo a ver com pesquisa — e nesse momento eu decidi repensar minha carreira esse ano e, principalmente, me fazer essa pergunta que era: “Qual que era a história que o meu e o coração das pessoas queriam contar?”. Porque eu via que circulavam em diferentes ambientes, falando com diferentes pessoas e, no fim do dia, as pessoas contavam coisas incríveis que elas estavam fazendo, mas elas vinham e me chamavam no canto “ah, eu tô com problema emocional, eu tô ‘assim, assado’”.

Então, eu tava vivendo aquele processo e eu senti muito de compartilhar isso hoje, porque isso é a raiz, principalmente, de uma pessoa que trabalha com pesquisa que vai lidar com histórias bastante pesadas para o tipo de pesquisa que eu trabalho, que é a pesquisa etnográfica, que é ir a campo, que é estar com as pessoas. E aí, repensando toda vida, eu também deixei de ser freelancer, né, nos últimos anos, nos últimos dois anos, desde que eu saí de uma organização que eu trabalhei durante muito tempo e esse mês eu fundei a minha empresa que é o “Outras Janelas”, que é um estúdio de história de vida, que vai ser totalmente focada em coletar as histórias das pessoas e com foco bastante uma pesquisa etnográfica e, principalmente, para trazer esses outros olhares das pesquisas quando a gente fala de emoção, quando a gente fala de comportamento, de como lidam com as coisas do dia-a-dia, principalmente quando a gente lida com questões de gênero, diversidade e uma série de outras coisas.

E aí, quando o (Edu) Agni me procurou, ele falou assim: “Sami, todo mundo que te acompanha no Instagram, sabe que você viaja muito, que você está sempre viajando e tal. Eu queria saber o lado B desse mundo das viagens”. E aí, eu falei tá, então eu vou fazer um Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas. Então, a partir de agora, vou contar algumas histórias de trabalho de pesquisa para vocês e as dificuldades disso, principalmente!

É muito importante deixar claro que, a forma como eu trabalho, tem a ver com uma decisão pessoal do meu modelo de vida. Hoje, desde que eu saí do Itaú em 2015, eu decidi que meu modelo de vida é sobre estar em movimento. Então, todo meu modelo de vida de viver de uma forma mais minimalistas, de conseguir trabalhos que eu possa estar em diferentes lugares, de descentralizar São Paulo, principalmente… E isso tem muito a ver com a forma como eu procuro trabalho, como eu vou buscar parcerias e projetos. Então, é a partir desse lugar, dessa decisão, que eu vou falar, principalmente dos trabalhos a partir de agora.

E aqui — deixa eu esperar o Anderson tirar uma “fotinha” ali. (risos) Querido! — E aí, o lado B é falar de dificuldade. Principalmente, porque as pessoas têm uma série de entornos nessa história das dificuldades. Porque tem o que eu enxergo como dificuldade, tem o que vocês vão enxergar como dificuldade, e tem o que, talvez, para você não vai ser uma dificuldade, porque cada um tem a sua história e sua forma de enxergar a sua própria vida, né. E aí, antes de também falar dessa coisa do modelo, tem um pouco, eu levo muito a sério esse negócio de pesquisa. E, principalmente, porque eu acabei criando um modelo para mim, que isso me ajuda principalmente no meu trabalho, de como eu visualizo o meu trabalho de pesquisa. E o meu trabalho com pesquisa ele se divide em três coisas.

A primeira coisa que é a auto-investigação. Eu sou a pessoa que tem se pesquisar, tem que olhar para sua própria vida. Porque, se você trabalha com empatia, você tem que primeiro olhar para você e se entender para conseguir ser empático com outro para você não entrar no risco do julgamento. E saber que no fim, todos nós temos mazelas e temos questões a serem tratadas. O segundo ponto são as culturas o terceiro ponto são os projetos.

Então, quando eu falo de auto-investigação, eu tô falando é sobre o que eu aprendo comigo. Então, assim, como eu falei que eu levo isso muito a sério, nesse primeiro, desde 2015, eu venho participando de muitos retiros, muitos trabalhos de autoconhecimento. Eu tenho conhecido trabalho das pessoas, o que elas fazem… Como que elas montam aquele workshop? Como que elas levam as pessoas para falarem das mazelas delas? Como, por exemplo, existem pessoas que estão trabalhando com suicidas? Como que é ter uma sessão com um especialista em suicidas, como eu já fiz? Então, é esse processo de auto-investigação tem a ver com olhar para minha própria vida e aprender comigo e, entendendo essas histórias nesses retiros, o quê que as pessoas estão vivendo? E tem sido muito interessante, que as vezes eu me deparo com possíveis clientes nos retiros. E aí as pessoas me chamam “ai, eu te vi no Retiro tal”, e aí eu falei: “Ah, era você?”. “Ah, então, eu queria que você fosse na minha empresa para fazer um trabalho ‘assim, assado’”.

Esse ano, inclusive, eu fui falar em uma grande marca sobre sagrado feminino menino, que o sagrado feminino nada mais é que a cura, né, e o autocuidado das mulheres em todos os momentos da nossa saúde, da nossa história com mulher. E aí, eu acabei indo nessa empresa para falar sobre isso e fazer um trabalho com eles. E eu conheci a pessoa num retiro disso.

E aí, como eu tava falando, que eu tive o processo depressivo, fui diagnosticada e tal, e no auge da minha lucidez, apesar de toda a apatia e toda vontade de morrer, que por alguns dias eu tive, que eu achava que a vida não tinha mais sentido, por me sentir muito culpada por estar sentindo aquilo que é muito absurdo, eu falei “eu quero procurar um tratamento alternativo, eu não vou tomar Rivotril. Eu não vou falar o que o psiquiatra está me dizendo”. Aí eu fui para o Google, eu falei “eu sei fazer pesquisa, né?”. Então fui para o Google e eu comecei a pesquisar todos os tratamentos alternativos para depressão e suicídio. E aí, eu cheguei nos estudos da Universidade de Ribeirão Preto, nas universidades americanas sobre o Ayahuasca. E aí, desde então eu venho tratando isso com Ayahuasca e eu trouxe isso aqui, muito importante, porque esse é o cipó, né, da Ayahuasca.

Ayahuasca é uma coisa que tem… aqui no Brasil isso é muito importante porque a gente tem isso de dar e sobra. E a gente tem uma questão que o todo estudo em torno da Ayahuasca que, — uma coisa que gosto de deixar muito clara é que Ayahuasca não é droga, ela é um enteógeno, então isso diz muito sobre como você vai olhar para o teu mapa interno e para tuas informações internas e para as informações das pessoas que estão ali com você, porque elas vão compartilhar histórias.

Na primeira vez do processo de tratamento, tinham vários psiquiatras no retiro que eu fui e tinham vários caras de investment Banking. E eu venho de onde? Do mercado financeiro! Meus ex-colegas da Faria Lima. Então foi muito interessante que eles estavam ali também e eu acho que no fim é sobre o qual que é o tipo de tratamento, qual que… o que você pesquisa sobre você mesmo e isso diz muito como você lida com outro, né. E, no fim, é sobre como que a gente estuda as emoções e como que a gente fala de Inteligência Emocional. A gente lê um monte de livros de Inteligência Emocional, vai a um monte de curso, de artigo, podcast sobre Inteligência Emocional. Tudo que recrutador hoje fala: “ai, como que você lida com a inteligência emocional?”. Mas como você tá vivendo isso, sabe? Como, de fato, você está lidando com as suas emoções, como você lida com as emoções do teu time. Principalmente no meu caso, que eu lido com time global de projetos, eu não sei o quê que um russo tá sentindo, sabe? Então isso é bem importante.

O outro ponto é a questão das culturas, né. O quê que eu aprendo com os lugares? E, eu morei dois anos na Argentina. E a Argentina foi bastante desafiador trabalha lá, porque eu acho que lembrei muito todos os dias que eu era mulher. Eu acho que eu não lembrei tanto. E, principalmente pela desconfiança de ser mulher, eu tinha que co-liderar um projeto de um ano para um banco internacional. Eu trabalhava dentro desse banco via consultoria e eu tinha que co-liderar isso com outro argentino e o tempo inteiro, quando ele não estava presente, ele falava: “mas você me avisa, tá? O que você tá fazendo e tal”. E aí, um dia eu chamei ele para conversar eu falei: “Por que tanta desconfiança?”. Aí ele falou: “é a primeira vez que eu lidero um projeto com uma mulher. E eu, para ser muito sincero, eu não confio em vocês”.

Então, para mim foi muito pesado, já de cara, liderando um projeto estando lá, lidar com esse tipo de coisa e perceber uma cultura, que a cultura da América Latina é extremamente machista. E na Argentina isso mais ainda potencializado, porque se tem toda a figura, né, do “macho argentino”, e aí você tem os homens, eles vão na reunião com a camisa aberta, com os cabelos aparecendo assim… Não importa se ele é o seu cliente ou se é o seu colega. Então, a questão do corpo do homem isso, né? E, essa coisa gritante em relação feminino. E aí, eu, ao mesmo tempo que eu tava trabalhando no país numa crise financeira enorme, eu tinha que entrevistar, durante todo o projeto eu tenho que entrevistar as pessoas, eu tinha que ir na casa delas, liderar o projeto, né? Da plataforma que eles iam lançar.

O que foi muito forte nisso era que o tempo inteiro eu tinha que criar formas de driblar o machismo… do machismo com cliente de eu apresentar. É… eu trabalhei muitos anos com bancos, então minimamente, alguma coisa sei, né? Então eu ia lá apresentar alguns estudos e ai o cara falava: “Foi você quem fez? Chama o Nico para apresentar”. Aí o Nico falava: “Não, mas foi a Samille que fez. Ela fez sozinha”. Era como se o tempo inteiro eu tinha que me defender sobre o que eu estava fazendo.

Foi incrível todo projeto, todo aprendizado e isso me fez, nessa época, me envolver com várias iniciativas de mulheres na Argentina. Então, eu participava dos movimentos do Ni una menos que é várias coisas de liderança para mulheres. E uma das coisas que foi interessante — esse era um que eu não posso mostrar o material, claro! Mas esses são slides genéricos do projeto -, que era estudar o ecossistema do dinheiro e a partir das emoções, né? E eu lembro quando ia falar isso com os pesquisados, que eram homens, eles falavam assim: “ah que interessante essa brasileira que gosta de pesquisar sobre finanças, né?”. Aí eu falava: “gente, qual que é o problema?”. Então, o tempo inteiro, parecia até infantil ter que lidar com isso. E que eu tinha que saber: tá, o quê que eu vou falar agora? Eu tinha o tempo inteiro que estudar mais e apresentar mais para poder falar sobre aquele assunto.

E parte dessa minha pesquisa sobre histórias, que já vem há muito tempo, mas agora isso se torna público — porque eu já faço isso há bastante tempo -, é, eu venho pesquisando bastante os nossos povos originários, e o fato de ter nascido no sul da Bahia, eu tô do lado, né, dos índios Tupinambás.

E aí, agora, eu comecei uma pesquisa no fim do ano, eu fiz a primeira parte. Vou fazer a segunda agora esse ano, porque demanda bastante tempo de estar na aldeia com eles, né. E foi muito legal, porque eu procurei os Tupinambás para entender como que eles estavam lidando com oralidade e com a questão da chegada da internet. Porque os índios, todo o conhecimento deles é repassado via oralidade. E aí, quando a internet chega na aldeia, isso é uma coisa que impacta muito. E eu fui com esse olhar e eu acabei tendo que entender muito toda violência que os indígenas estão sofrendo.

Essa foto, esse é o cacique Ramon Tupinambá, e o cacique, o tempo inteiro ele tava com esse facão do lado. Aí teve uma hora que aquilo me deu um nervoso e eu falei assim: “por que você está com esse facão, se a gente nem tá andando na mata fechada?”. Ele falou: “eu quero garantir que ninguém vai atacar você aqui. Porque você veio me visitar, e ontem a gente sofreu um ataque”. Isso foi em dezembro do ano passado. Ai eu falei: “tá bom! Ok, tá tudo bem!”. Aí ele começou a explicar tudo que ele estava vivenciando de violência e como que toda parte das Aldeias ali do Sul da Bahia, que é onde começa a toda história do Brasil, ali em Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro… como que eles estão tendo que lutar para muitas vezes as pessoas chegam lá querendo criar plataformas digitais, mas eles tão tendo que voltar para o básico, que é garantir que eles estejam vivos. E que eles possam contar coisas novas e ensinar para os jovens como lidar com tecnologia, né?

E uma coisa que foi muito interessante nesse processo é que as mulheres — essa é a índia Nádia Cauã e essa é uma das anciãs da Aldeia — e elas começaram documentar via WhatsApp, com áudios, — que era o recurso que elas tinham, né? — como que elas ensinam, por exemplo, como cortar cabelo, como lidar com as coisas da comunidade para poder ensinar as garotas, porque o que tá acontecendo? Com a chegada da internet, elas chegam no Google, elas chegam nos aplicativos. Elas estão lidando com tudo isso. E como que é ser uma mulher indígena lidando com todos os preconceitos e com todas essas inseguranças que giram em torno, né.

E o terceiro ponto que eu falei, que são os projetos, é sobre o que que eu aprendo com os outros. E ano passado eu fui para o Uruguai, para trabalhar num projeto também de finanças — você já deve ter percebido que eu amo esse assunto, e de fato eu gosto mesmo! — e o cliente tinha dito que eu ia chegar lá e que eu eles já tinham feito o recrutamento das pessoas, né. O que me dá bastante calafrio nessa hora. Porque eu fico pensando o quê que esse cliente recrutou. E eu tenho que ir para lá e entrevistar essas pessoas. Eu já tinha visto o protótipo, era um processo de entrevista e que eu tinha também que fazer os testes do protótipo. Aí eu cheguei no Uruguai, e eu só tinha ido para Montevidéu uma vez. Eu não conhecia nada de Montevidéu. Eu tinha, sei lá, três conhecidos em Montevidéu. Eu achava que era suficiente conhecer três pessoas caso alguma merda acontecesse… eu tinha três pessoas para socorrer.

Aí quando eu cheguei na primeira entrevista, chega um senhorzinho todo elegante na entrevista, e eu começo entrevistá-lo e tal, aí ele vira no meio da entrevista e fala assim: “olha, na verdade, quem usa esse aplicativo é a minha secretária”. Aí eu respirei profundamente na hora, deu aqueles cinco minutos de desespero, eu não posso tirar o senhorzinho aqui da entrevista. Porque, pelo que eu saquei, eles escolheram os clientes preferidos deles que vão falar bem do quê? Do protótipos! E aí, eu me fodi!

Ai eu peguei e terminei entrevista, aí virei para ele falei assim: “Senhor Fulano, eu posso entrevistar a sua secretária em algum momento e tal?” Por sorte, a minha próxima entrevista era só à tarde. Ai, fui e sentei com uma pessoa do time lá e falei: “olha, é o seguinte, não tem como a gente continuar o projeto enquanto a gente não mudar todos os perfil”. E aí ela — a sorte que eu falo espanhol muito bem, então as pessoas não podem me engabelar nesse momento. — E aí ela falou: “não, mas aí não sei o que…”. Eu falei: “eu sei que vocês estão com medo de que as pessoas falem mal, mas o foco aqui é a gente testar esse aplicativo. É a gente entender o comportamento do usuário no Uruguai, entender a relação dele, comportamento financeiro, e a gente precisa fazer isso. “Ah, mas a gente não tem alternativa”. E eu falei “Tem sim!”. Aí eu comecei a falar com as três pessoas que eu conhecia no Uruguai, e aí eu cheguei numa menina que já tinha feito recrutamento para uma empresa de pesquisas, e aí eu comecei e eu usei a minha boa cara de pau baiana para isso, eu falei “olha, eu não tenho dinheiro, mas eu preciso achar determinadas pessoas” e eu comecei a achar o que garantiu que a gente tivesse os clientes, né, deles e que tivessem pessoas de fato que iam me dar insumos importantes para aquele aplicativo, para aquele momento que o Uruguai vivia de educação financeira, num país que as pessoas com 70 anos a primeira vez estava usando caixa eletrônico. Então a gente tinha que ter de fato efetividade na pesquisa.

E aí o que eu falo nisso é a questão do jogo de cintura e principalmente de rede de contatos. Porque, às vezes, a gente acha que quando trabalha com pesquisa, que as condições de temperatura e pressão tem que estar ótima, que tem que chegar lá tá os perfis que a gente precisa, que tem que estar tudo lindo. E isso não existe! A realidade é que a gente tem que se virar mesmo e tem que fazer o nosso melhor para conseguir. E eu não estou falando de marcas pequenas. A gente fala de grandes organizações aqui.

E assim, com esse intuito de trabalhar mais com pesquisa etnográfica e pesquisa mais em campo, eu tive a felicidade, desse ano, de ir para o Acre, e eu fui fazer uma pesquisa durante 12 dias na reserva extrativista Cazumbá-Iracema. Ela é uma reserva que é protegida pelo ICMBio, que é o Instituto Chico Mendes, e essa pesquisa foi uma pesquisa para um filme que vai ser lançado o ano que vem no cinema, que é o IMAGINE 2030, que são as diretrizes da ONU sobre o futuro possível que a ONU imagina que possa existir até 2030. Então, a gente foi colher as histórias positivas que já acontecem no Brasil.

E nessa imersão lá em Cazumbá, eu tinha feito todo um plano da pesquisa, eu nunca tinha feito pesquisa para filme. Ai eu tinha montado várias coisas, pesquisado, estudado, não sei o quê… até porque no meu time ia ter bastante homem, e infelizmente ainda, por mais que você não pode correr o risco de errar, porque o cara pode até errar, mas você sendo mulher vai dizer: “ué, mas você não trabalhava com pesquisa?”. Então eu pesquisei tudo que era sobre a reserva, fiz mil coisas… e aí, quando eu cheguei lá, eu vi que, primeiro: a minha personagem principal ela acordava 4:30 da manhã e eu tinha que estar às cinco horas sorrindo para ela. E ela dormia às 8 horas da noite e eu tinha que passar o dia inteiro com ela. Ou seja, eu ia ficar 12 dias vivendo a vida de Leonora Maia e entrevistando ela, todos os entornos, todas as coisas. Então, eu tive que mudar todos os meus planos, mas foi muito importante nesse momento lembrar da capacidade de escuta, de estar atento. Porque o filme precisa muito desses elementos para você captar boas histórias.

E aí teve uma questão da insegurança, que foi muito forte no Acre. O Acre hoje é um território que está dominado pelas facções criminosas, né… do tráfico de drogas. E uma coisa que aconteceu, que foi muito forte, na volta da reserva eu peguei o motorista particular, que foi buscar a gente. Tinhas os militares para receber e autorizar a gente. Foi todo um esquema de segurança, só que no final isso falhou um pouco. Eu entrei no carro eu sentei na frente porque o motorista, ele era um homem negro, e no Acre não tem pessoas negras. Então, toda pessoa negra que eu encontrava eu virava “ai, vem aqui falar comigo”. Porque eu me sentia muito… que lugar é esse? Que Brasil é esse que não tem… onde tá a população negra desse lugar, sabe? E eu sentei na frente com ele e as duas pessoas do filme estavam atrás. De repente ele deu carona para um cara que tava do lado e eu claramente vi que o cara tava armado. Aí eu respirei fundo e falei “o quê que eu faço agora?” aí eu falei vou pedir para o Meu Pai Oxalá o quê que eu faço agora. Ai o cara entrou no carro, ele deu carona para o cara e ele falou assim: “olha, eu vou dar carona para ele para o ramal — que eu acho que ramal era o nome das ruas lá — e vai ficar tudo bem. Eu tenho que fazer isso para me manter vivo!”.

Aí eu “ok!”. E eu fui o caminho inteiro conversando, ainda puxei papo com cara e sabendo que ele tava com a arma aqui, né. Aí quando ele desceu no lugar, eu respirei fundo assim, mas eu tava no estado de tensão, que depois eu pensei que claramente ele não ia fazer nada com a gente, porque ele só queria carona para levar no lugar e ele conhecia o cara. E fora que o motorista começou a contar várias barbaridades do caminho, assim. Então eu lidei e as duas pessoas do filme estavam super cansadas, dormindo e eu tava sozinha com cara, literalmente. E no meio do nada, porque era uma estrada e era muito mato. Felizmente, é muito linda, assim, como o Acre tem uma natureza impressionante. Então eu tive que lidar com isso. Aí isso era um pouco da reserva, esse era um pouco dos trajetos. A gente teve, tipo, pau de arara, avião, carro, canoa e equipamentos mega caros. E um pouco da hospedagem, assim, porque, tipo, a gente teve que fazer varal, porque fazia muito calor, ventilador, mosquito, até hoje eu estou me recuperando, assim, da quantidade de mosquito que eu fui mordida. E tinha que tá sorrindo para os entrevistados.

E indo um pouco mais para o final, eu acho que… eu acredito muito que todo o processo de quando você olha o lado B das coisas é muito para você amadurecer com a vulnerabilidade. E quando a gente trabalha pensando num contexto de tecnologia, de serviços e ao mesmo tempo num país que você tem uma série de problemas que são extremamente comportamentais e éticos, como que a gente aprende com vulnerabilidade, como que a gente olha para isso, né. E como que a gente pensa e observa a vulnerabilidade no nosso cotidiano de trabalho e nos projetos. E, principalmente, quando a gente olha para essa vulnerabilidade, como que a gente recomeça, que a gente sempre pode recomeçar.

A gente sempre pode recomeçar no meio da pesquisa de repensar o plano inteiro ali, porque você tá no meio do mato e não era nada que você pensava. Olhar para dentro de você. Você pode repensar a sua carreira, você pode representar o tipo de trabalho que você faz. E esse eu faço muito um convite para vocês, olharem para isso… Qual que é o lado B que vocês querem criar com trabalho de vocês? De pensar essa metáfora de como que vocês querem ampliar esse olhar. Olhar para outras perspectivas e principalmente, voltar para ser ser humano, assim. Acho que a gente vive no momento, não só no Brasil como em outros países, que a gente anda esquecendo disso. E a gente precisa, a gente que trabalha… User experience. O user, quem é ele? Então, quem é ela? Então a gente voltar a ser ser humano.

Obrigada, gente!

Samille Sousa apresentando a palestra “O Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas” na #DEXCONF19

[APLAUSOS]

Samille Sousa: Obrigada, obrigada!

Daniel Furtado: Que lindo, que lindo, que lindo! O quê que é isso? Isso é seu?

Samille Sousa: É uma pedra de Turmalina.

Daniel Furtado: Que coisa linda. Posso ver?

Samille Sousa: Pode!

Daniel Furtado: Nossa, bonito!

Samille Sousa: É bonito, né?

Daniel Furtado: Nossa, adorei!

Samille Sousa: É! Para se proteger.

Daniel Furtado: E você usa para se proteger?

Samille Sousa: É!

Daniel Furtado: É bom, né? Nessas horas. Você viu um monte de olhar invejoso em cima de você? Porque você ficou passeando em um monte de lugar legal.

É sempre assim, né?

Samille Sousa: É sempre assim!

Daniel Furtado: Gente, último papo do dia, sabia?

Samille Sousa: Ah, é?

Daniel Furtado: Ai depois é lá!

Samille Sousa: Boa, boa… Aí a gente vai ouvir o Fred falando.

Daniel Furtado: E lá tem prêmios…

Samille Sousa: Oh, meninas… óh!

Daniel Furtado: Chantagens… Quem vem aqui bater papo?

Samille Sousa: Quem quer? Eu falei tanto!

Daniel Furtado: E de novo, vai ser a última de hoje também. Finalmente! Se alguém for sair, não passa ali na frente. Última vez, óh! Pelo menos não vou precisar falar de novo. Porque depois acabou! Quem vem? Quem vem? Quem vem? Quem vem? Quem vem? Quem vem? Ali, as pessoas estão com tanto sono que eu vou sentar e conversar com você.

Samille Sousa: Olha que honra, a Natália quer me fazer perguntas.

Daniel Furtado: Mas eu adorei tudo o que você falou. Eu achei, nossa… mas é punk esses negócios. Eu tenho uma amiga que quer fazer pesquisas também com coisas de agronegócio e, às vezes, as pessoas simplesmente não falaram com ela. Então ela ia ela, o pesquisador e ela tinha que ficar trocando de papel porque falavam “eu não vou falar com você.”

Samille Sousa: É muito bizarro!

Daniel Furtado: Parece que a gente tá sei lá onde.

Participante 1: Tudo bom?

Samille Sousa: Oi

Participante 1: Obrigada por ter compartilhado um pouco da sua história também e desse lado B. Fiquei pensando até nesse ponto de se conectar com as histórias e com as pessoas e tudo mais, o quê que você pode compartilhar com a gente de dicas até, a gente quando está no momento de pesquisa para conseguir se conectar de forma mais verdadeira com as pessoas. Até, assim, coisas práticas que você fala “Ah, já fiz e deu certo. Esse tipo de coisa tentei e não foi legal, não consegui me conectar”. Porque, acho que quando a gente tá na pesquisa, é uma das coisas mais difíceis. Então, a gente está ali, às vezes, precisando tirar resultados de uma coisa mais prática e tudo mais, mas a conexão verdadeira é o que vai chegar nas melhores respostas… então, por favor!

Samille Sousa: A primeira coisa, assim, que geralmente eu faço, principalmente, porque eu vou na casa das pessoas, né, e se for pensar, a casa é algo muito íntimo. É onde que a gente… vou falar um pouco da casa e nos outros contextos, assim… na casa das pessoas, geralmente eu chego e primeiro eu quero conversar sobre o que ela tá fazendo ali na hora. Ai é ela contar um pouco, não pega no roteiro, nada. Vou lá e converso um pouco com ela, me mostra tua casa, me mostre as coisas, vou tentando me familiarizar com o que ela tá ali na hora. Pergunto primeiro como que ela tá naquele dia, como que ela tá se sentindo. O que é uma responsabilidade, porque, por exemplo, quando eu fiz a pesquisa na Argentina no passado, o menino virou para mim e falou assim: “eu tô me sentindo uma merda, o dólar chegou a 45 pesos eu tentei me matar ontem”. Então, é como se eu tava na casa deles, eu, ele e a minha dupla de anotar as coisas assim.

Então, primeiro eu peço, olho isso da casa, para dar um lugar de conforto e às vezes eu pergunto um pouco assim: “antes da gente começar a pesquisa, tem alguma coisa que você tá muito afim de me contar?”, porque você nunca me viu. E o que você contaria para uma pessoa que você nunca viu? Ai eu tento trazer esse lugar da pessoa tentar me contar coisas que ela tá com vontade, porque geralmente ela me conta algo mais profundo, e aí eu vou e faço um gancho com o projeto, assim.

Outra coisa também que eu acabo pedindo quando eu tô no território da casa, que a pessoa me traga coisas da casa dela que representa o que ela tá dizendo. Porque aí, entra naquele lugar de que nossa, olha que legal, ela quer realmente está interessada. De fato eu sou bem interessada e curiosa, mas vou lá e peço para a pessoa me mostrar.

Outra coisa também, que é pedir essa questão do tempo, né. Geralmente eu gasto de duas a três horas numa entrevista como essa. Então, eu falo: “olha, é um momento que você vai ter comigo, então dedica esse tempo para você contar as histórias, me contar isso…”. A gente tem um roteiro. Eu estudo bastante o roteiro antes, mas eu tento antes de pensar o roteiro, porque, claro, quando a gente tem cliente pagando, o cliente sempre vai pedir várias coisas. Ele quer saber tudo da pessoa, aí eu me planejo de outro, assim… alguns tópicos e palavras para me dar abertura e eu sempre volto para o que a pessoa está sentindo. Aí eu, principalmente, a pessoa está falando lá, o ano passado eu fiz um projeto para a Estela Oder, era sobre mercado de luxo. E eu tinha que entrevistar várias mulheres, várias blogueiras, médicas e tal. E aí, eu ia na casa das pessoas, muitas tinham vergonha de me dizer algumas coisas, né, os produtos que elas usam, porque eram um pouco excessivo, pensando pro consumo. Mas aí eu falava: “Como você está se sentindo me contando isso?”. “Ah, eu to isso…”. Eu falei: “Está tudo bem!”. Então, eu tento transmitir um pouco essa confiança, de trazer para esse lugar de sentimento e de… aí, eu geralmente, às vezes, brinco assim de falar: “tem alguma coisa que você quer me perguntar?” para pessoa ficar cada vez mais à vontade, sabe? E isso pensando na pesquisa em profundidade, ali… entrevista e tal.

Quando é o caso testes, que eu tenho feito cada vez menos testes assim, de usabilidade, teste protótipo, eu tenho feito muito, muito de etnografia, eu tento muito no início bater um papo com pessoa e tentar pedir para ela me mostrar um pouco do que ela usa no celular dela. E aí teve um caso recente de um teste que a menina tava com muita vergonha de mim aplicativo de date, assim. Ai, eu falei: “Gata, tá tudo bem, inclusive eu fui Beta tester do bambu”. Aí ela abriu o coração. Ela tava super “ai, eu não sei usar isso. Eu não sei nem por que que eu to aqui”. Daí eu falei… quando eu brinquei com ela disso, aí ela foi e se abrir. Eu tento pescar alguma coisa que é da pessoa e que ela tá me evidenciando. Valorizar um pouco. Por exemplo, na Argentina… Os argentinos eles eram muito desconfiados para falar de dinheiro, porque lá eles guardam dinheiro em casa. Então, quem é essa maluca aí que vem na minha casaparafalar de dinheiro? Vai me roubar depois.

Então, o que eu fazia muito era tentar, trazer um pouco disso de, tipo: tá, eu tô aqui, eu também tenho questões com dinheiro e eu quero viver isso com você, compartilhar isso com você. Eu acho que, no fundo, entrevistar também é sobre você despertar um pouco amar e ser amado, assim, sabe? Acho que ter um pouco de afeto. Não dá para você fazer um roteiro meio tipo: ah, é isso e acabou, sabe? Acho que tem um pouco disso. E claro, tem coisas que não dão certo quando sou muito direta ou eu tenho um tempo ou cliente está me atazanando, assim.

Participante 1: as pessoas gostam de serem ouvidas. Eu acho que é uma coisa que eu tenho percebido também. Então, se você capta alguma coisa que tem a ver com a vida dela, isso pode ajudar nessa percepção e trazer proximidade.

Samille Sousa: sim, sim…

Participante 1: Muito obrigada!

Participante 2: Jamile, prazer em conhecê-la hoje… Samille. A minha experiência em relação a entrevistas ela é recente, mas eu tenho um interesse muito grande, justamente pelo afeto, pelo contato, pelo apreço do indivíduo e a entrega também, né. Tudo isso que você já falou. Inclusive, uma das perguntas que eu fiz, você já respondeu, mas eu queria só voltar nela um pouco em relação ao contexto de vida. Se você busca o contexto de vida dos entrevistados, imagino que dentro deles existam insights que fazem você traduzir muito o resultado da pesquisa a partir dessa imersão. Etnografia é muito isso, né? E eu tenho percebido que é muito necessário, mas o mercado, às vezes, não tem o tempo que você precisa para fazer uma imersão como essa. Então, primeiro, assim, como lidar com esse tipo de enfrentamento? Como o mercado pode se abrir para uma imersão mais profunda? E também, principalmente, como você costuma compilar seus dados? Como você faz suas entregas, independente qual é o âmbito da sua pesquisa, qual que é o trabalho que você traz de solução, assim, em relação à sua entrega de pesquisa.

Gosto muito dessa área e eu agradeço a sua fala que foi muito válida para mim.

Samille Sousa: Obrigada! É, primeiro do contexto, eu sempre tenho que pesquisar muito. Por exemplo, essa do Acre, eu estudei muita coisa. Eu li, principalmente, as páginas policiais. Fiquei lendo coisas da economia do Acre. Eu me preparei muito, principalmente pros termos. Tinha uma questão principalmente de língua portuguesa, porque as pessoas no Acre, elas usam os verbos diferentes do que a gente usa em São Paulo ou em outros Estados. Então, eu tinha que entender alguns significados. Então, eu pesquiso muito, mas eu também me faço, eu planejo algumas perguntas antes do que eu preciso de insumo para, também, não me enviesar. Ai eu pego algumas coisas que eu sei que vão ser importantes para me instrumentalizar no campo. Aí, geralmente eu monto meu caderno de campo antes, que ai eu coloco… sempre tenho um caderno, e tenho a gravação que, às vezes, no caso de Cazumbá, eu ia no banheiro quando ia fazer xixi, eu ficava gravando no áudio do meu celular, para não perder algumas coisas. Faço muitos registros com foto durante o campo. Muita foto… eu tô virando PhD em iPhone assim, porque eu nem sempre tenho uma pessoa com uma câmera profissional. E eu acho muito invasivo, às vezes, você tá ali na pesquisa tirando no momento, dependendo do tema que você está estudando.

Então, tem esse processo do caderno de campo, do celular. Eu tiro também uns minutos, que aí vem o meu lado mais holístico que eu sento e fico em silêncio, formando — eu gasto, às vezes, muito tempo fazendo isso — formando na minha cabeça todos os registros e tudo o que eu vi. Aí depois eu vou lá e anoto tudo.

Eu sempre coloco isso no cronograma, que é o tempo para mim, mas o cliente não precisa saber que eu vou fazer isso, né? A cozinha, quem lida sou eu.

E aí, a outra coisa, de como eu entrego, né. Então, tem formatos diferentes e depende, às vezes, do cliente. Nos últimos tempos, os clientes pediram, principalmente marcas grandes, relatórios, né. Eles querem um relatório bastante imagéticos, com bastante análise, extração de dados, termos. E aí eu vou tentando dar uma quebrada em algumas coisas. E… bastante relatório.

Agora, eu quero começar a pensar… tava falando com Fred hoje, sobre isso, de fazer mais vídeos, claro que tem um custo maior. Mas, uma coisa que eu saquei e talvez que tem a ver com o fato de ter sido funcionária de uma organização muito tempo, que quando você entrega um relatório etnográfico, as pessoas não entendem o que elas vão fazer com aquilo. Então, eu coloco no meu orçamento hoje, assim: tem a parte pesquisa, né, planejamento, preparação, as reuniões… eu cobro tudo. E coloco a parte do campo, a produção no relatório formado. E eu cobro um ou dois workshops a mais ou vivências para pessoa vivenciar aquilo. Por exemplo, essa marca, que foi uma pesquisa bem simples, que era sobre Sagrado Feminino, porque eles queriam experimentar isso. Eles ainda… a gente ainda está em conversa sobre isso, porque requer um investimento alto. Eu levei, por exemplo, uma pessoa que é especialista em tambores xamânicos que trabalha com cura do útero das mulheres e levei para falar sobre a pesquisa a mulher fazendo isso, então para trazer isso para materializar. E ai eu faço uns ganchos… isso tem a ver com tal e tal coisa, vocês podem usar na área tal, vocês podem fazer… o porquê. Eu trabalhei numa organização, eu já estive no outro lado. Isso me dá um privilégio muito grande de entender como os executivos pensam um pouco. Então, eu faço um pouco essa conexão de traduzir bastante. Mas os formatos existem vários, mas eu acho que, por fim, o formato tem que fazer com que a pessoa entenda o que ela vai fazer com aquilo.

Participante 3: Ela meio que já fez a minha pergunta… principalmente quando você falou que faz entrevista de 2 a 3 horas. Você grava essas entrevistas? E como é a transcrição depois? Porque esses dias a gente fez uma de 40 minutos e a transcrição levou dois dias, né. E também, como entregar isso de uma forma mais humana, ne? Porque você se aproximou tanto das pessoas, mas depois, principalmente pros clientes de finanças, eles querem dados, números. Como trazer esse lado humano para eles também?

Samille Sousa: É, na parte da documentação durante a pesquisa, geralmente ou eu vou com mais uma pessoa, e aí essa pessoa vai anotando… às vezes, meio que dá um siricutico e eu quero anotar, quero captar as frases, os verbos assim, as palavras. Eu venho da comunicação e isso para mim é muito valioso. No Acre, as pessoas não falam molhar a planta, elas falam aguar. Isso é incrível. Isso tem que tá no relatório, o significado desse verbo. Então, geralmente eu tenho mais alguma pessoa e/ou eu termino uma entrevista e eu vou lá e gravo tudo… raramente eu estou sozinha. Na do Acre eu estava sozinha. Então, eu tinha que gravar muito, eu usei muito no final ou nos intervalinhos ali, porque eu não podia sair do lado da minha pesquisada, porque os diretores iam me matar, porque eu tinha que tá ali, do lado dela, o tempo todo.

Então, eu gravo muito áudio, mas principalmente eu gravo as frases, assim… E tem horas até que eu chego a decorar o que as pessoas estão falando, porque aquilo vai ser muito importante. O jeito que ela fala, a forma que ela enxerga aquilo.

E isso da transcrição, eu até, esses dias, tava pesquisando e falando com um amigo meu que trabalha com pesquisa na Alemanha, falei assim: “poxa, tinha que inventar um programinha que estivesse no meu pulso e que tá tudo gravado e já transcrever tudo, assim”. Isso já é muito difícil, o que eu faço muito é, quando é a transcrição assim, eu trabalho, acho que mais horas no dia para fazer isso, principalmente que eu sou bem “crica” com isso, das frases, para pegar o insumo da emoção e principalmente eu documento, assim, qual que é a expressão que a pessoa tava? Principalmente, porque aqui no Brasil, as pessoas adoram mentir, às vezes, na hora das entrevistas. Ou omitir coisas. Então, eu vou lá e coloco a expressão facial dela, embaixo assim: mexeu a testa, sei lá. Aí eu ensino para a pessoa que tá comigo, ó: não esquece das expressões. Se a pessoa cruzou o braço, fez isso, fez aquilo… isso diz muito, para poder lidar. Mas isso da transcrição eu acabo fazendo isso mesmo, de pegar e anotar mesmo e gravar o áudio e sentar a mão e ficar lá fazendo. Mas eu queria muito que existisse um programa maravilhoso que fosse um chip no meu pulso para gravar tudo.

Amei a sua camisa. Melhor camisa do evento!

Samille Sousa apresentando a palestra “O Lado B de ser uma pesquisadora em diferentes culturas” na #DEXCONF19

Participante 4: É, maravilhosa. Queria perguntar um pouco… que eu achei um pouco… que você falou já sobre a experiência do Acre, de levar alguém. Mas como conseguir, se faz sentido, ou se você tem algum tipo de experiência, de tentar promover essa experiência um pouco mais antropológica em times mesmos internos e não só no conceito de “ah, precisamos criar algo no Acre”, mas pegar um time ali de 4 ou 5 pessoas, promover essa experiência, uma questão de abrir mente, entender outros contextos, essa questão de sair da caixa. Não sei se você já teve alguma experiência ou se como se isso é possível e agregar, assim…?

Samille Sousa: Eu trabalhei de 2012 até 2015 na área de inovação do private do Itaú, que é o segmento de Alta Renda Multimilionários do Brasil. E aí, eu trabalhava com pessoas que tinham estudado em mil universidades chiquetosas, trainees e tal, só que elas não tinham vivência da rua, elas não falavam com as pessoas. E quando você entrevista um milionário, é mais difícil ainda, porque você já tem uma série de coisas na sua cabeça do que você vai perguntar. E aí, na época, no primeiro ano, eu conversei com meu chefe e eu falei assim: “olha, eu queria começar a criar umas vivências, umas experiências, porque a gente é um time de 25 pessoas, que a IDEO criou toda a estratégia dessa área e que as pessoas não falam com as pessoas.”

Aí a gente criou um planinho que toda sexta-feira, assim, a gente tinha um encontro de 1 hora e pouquinha que a gente tinha que criar alguma vivência, alguma coisa. Ou a gente fazer alguma visita num lugar. Por exemplo, eu levei uma atriz para fazer uma vivência — banco não dá para ficar fazendo 4 horas, né. Então, uma hora que seja, que fosse, para mim já era incrível. Aí eu levava a pessoa para fazer ou a gente saia para visita.

Então, eu montava um roteirinho com bastante foco, porque, né, eu trabalhava numa organização. A gente vai nesse lugar, a gente vai fazer isso, a gente vai ouvir isso, observa isso, anota desse jeito… isso ajudava muito. Quando dei aula no Insper, foi muito isso, de levar os alunos para eles irem para rua, mas com foco, sabe? Não dava para ser coisas tão aleatórias, porque as pessoas não tão acostumadas a fazer isso. Então eu tinha que me empatizar um pouco com elas. Mas cria, nem que seja alguma coisa, tipo de uma hora na semana, ou uma hora e meia, que ela vá fazer uma atividade fora, com foco que ela possa discutir isso depois, isso vai ajudar muito, assim… E ter o objetivo disso. Acho que isso tem que ser importante!

Participante 4: Só para complementar… como, pegando essa ideia de time, mas tratando do time o diverso, pessoa, gênero, raça, de onde veio, geográfico… se faz sentido como trazer essas experiências, que cada um se sinta deslocado e, tipo, vamos pegar disso porque tem fulano ali ele vai ter experiência, ou promover mais tipo: ninguém nunca viveria aquilo, sabe… pegando (…) diversidade do time.

Samille Sousa: Claro! Acho que tem uma coisa de tentar pegar o que é melhor de cada um, assim. É, eu tive que no ano passado levar uma galera para conhecer o Tiago Sampaio, do Banco Sampaio lá do Capão Redondo.

E ai, primeiro que as pessoas não vão para o Capão Redondo. Elas não sabem a maravilha que é o Capão Redondo e elas não vão lá. E daí, antes eu falei: “gente, o que cada um aqui sabe fazer?”. “Ah, eu sei pesquisar, eu sei desenhar produto, eu sei fazer isso…”. Então eu falei: “Então vocês vão lá com esse olhar. Tentem documentar o que vocês vão ver a partir desse olhar e aí, vocês tragam isso”. Porque, o que acontece, às vezes eu ouço “ah, mas eu vou lá fazer isso e eu não sou essa pessoa que vai fazer isso”. Então, isso é bem importante tentar trazer o melhor delas. O que elas sabem fazer de habilidade para levar para essa atividade, para se sentir “nossa, eu consigo fazer com aquilo”. Porque, às vezes, eu ouço de amigos que trabalham ou que são DEVs assim, eles brincam comigo: “ah, Samille você é muito louca. Eu nunca que vou na casa da pessoa ficar interrogando a vida dela. Você é louca, num sei o que”. E são pessoas super incríveis e que eu acho que se elas fossem ia ser incrível para elas como DEVs fazerem isso também, sabe… de falar com as pessoas.

Mas eu acho que é muito esse planinho de trazer o melhor, planejar bem o que vai fazer assim, sabe?

Obrigada!

Participante 5: Oi! Muito obrigada pela tua fala. Muito enriquecedora. E bom… quando a gente tá falando em pesquisa e pesquisa etnográfica, mesmo que seja para um insumo, para empresa, uma ferramenta para tomada de decisão de gestão, a origem da etnografia, por exemplo, tem a ver na antropologia e na sociologia. E, muitas vezes, a gente separa muito, né, na empresa… o que a gente vai fazer de pesquisa em empresa e a origem da ciências sociais e da academia em si. Como é que você vê a relação de uma coisa com a outra e o que pode ser agregado de um lado para o outro. Como é que você vê isso?

Samille Sousa: Eu acho que cada vez mais a gente tem que juntar as pessoas e mostrar o melhor delas de cada lado. Vou falar de dois contextos diferentes. Como a pessoa que contratava quando eu trabalhava no Itaú, eu sempre montava o time que tinha… eu contratava antropólogo, sociólogos freelas, né, porque tinha só um psicólogo que era do nosso time. E aí, e tinha o pessoal de designer que já fazia pesquisa ou pesquisadores e UX searcher e tal e tal.

Ai eu juntava essas pessoas e fazia com que elas dialogassem e entendesse que isso é complementar, porque ainda existe muito preconceito. “Ai, é da academia. Aí, é a pessoa do mercado”. Tem que promover, e essas pessoas quando se aproximam, isso ajuda muito. Então, eu tento muito e eu sou muito evangelizadora nesse sentido de falar: “Ah, o fulano que tá comigo, ele é sociólogo, e ele tá fazendo isso. Acho que seria legal, ele vai trazer tal e tal coisa, tal e tal olhar”. Juntar essas pessoas assim, isso eu tenho feito bastante. E agora eu vou ter que fazer mais ainda, porque toda a base do Outras Janelas vai ser juntar pessoas que tenham experiências diferentes para poder fazer pesquisa, ne. Principalmente porque a gente está num momento em que as faculdades de ciências sociais estão sendo julgadas e a gente tem uma série de pessoas formando em mestrados incríveis no Brasil que elas não têm onde trabalhar. Então, a gente precisa começar a falar dessas coisas de empregabilidade, acho que é promover esses diálogos, assim. E diminuir os preconceitos, porque existe tanto preconceito do lado do mundo corporativo, como do mundo acadêmico. E eu acho que quando a gente une essas coisas, isso ajuda muito. Tem uma pessoa que eu admiro muito,para fechar a resposta, que é o professor Fábio Mariano Borges, da ESPM, que é um grande sociólogo, uma pessoa que é um cara da academia, pós-doc, e ele tá no mundo corporativo fazendo pesquisa etnográfica, sabe?

Eu acho que é ir por esse caminho, de juntar esses dois mundos, assim. É difícil, mas tem que tentar, se não, não dá.

Obrigada!

Participante 6: Tudo bem com você? Então tá bom. Primeiro eu fiquei muito admirada sobre as suas pesquisas. Eu achei bastante interessante tudo o que você estava explicando aqui sobre o seu trabalho. Fiquei admirada de verdade. Parabéns!

Também eu tava pensando a respeito das respostas que você estava dando a essas perguntas, né. Você falou um pouquinho sobre as culturas e os conceitos diferentes que as pessoas têm, por exemplo, São Paulo, quais são os costumes de usar algumas palavras que em outra parte do país não tem, né. Daí fiquei pensando: realmente, em São Paulo tem palavras que se usa que outra parte do país não usa. Mas, por exemplo, e a comunicação em libras, né? Eu fiquei pensando nisso, na nossa comunidade surda, por exemplo, a nossa cultura é bem diferente de vocês que são ouvintes, bem diferente mesmo. É uma cultura totalmente a parte. Daí eu fiquei raciocinando em tudo o que você estava dizendo.

Nós surdos, todos os dias, sofremos com falta de comunicação com os ouvintes, né. E a cultura é uma segunda barreira que a gente encontra. Daí, na sua experiência, eu queria saber se já aconteceu, por exemplo, de você, em algum outro lugar ou algum outro país, de acontecer barreira linguística com você. Não conseguir conversar com uma pessoa, não ter uma comunicação. Já aconteceu isso com você? Como que foi? Eu gostaria de saber a sua experiência, por favor. Como você conseguiu lidar com essa barreira de comunicação?

Samille Sousa: Obrigada! Eu tive uma barreira de comunicação muito forte em Hamburgo, na Alemanha. Eu cheguei lá e eu falei: “poxa, eu tenho que saber lidar com as pessoas, só que eu não falo alemão”. Eu estudo alemão, mas não falo alemão fluente. Tá bem longe de ser fluente. Aí eu cheguei no restaurante e o cardápio estava todo em turco e o cara não falava inglês. Ai eu falei, eu vou fazer mímica com ele. E o cardápio não tinha imagem, também. Não tinha imagem e ele era turco e ele não falava inglês.

Aí eu comecei, aí eu fiz assim com a mão para ele. Falei, acho que isso deve significar tempo, depois você me ensina se é mesmo. Ai eu fiz assim e aí eu comecei a pensar como eu ia representar para ele com as minhas mãos e com o meu corpo, porque eu tinha visto o nome de um prato lá, e eu queria saber se tinha carne, se num tinha e tal. No fim, deu muito certo e aí eu percebi porquê que a gente não usa o gesto? E aí eu fazia, e teve um momento que eu me senti até ridícula, porque eu fazia assim para dizer para ele que carne fedia, sabe? Porque a carne turca era muito queimada e eu tava sentindo o cheiro da cozinha, então eu ficava e no fim a gente se comunicou assim. Então, essa foi a maior barreira que eu tive até hoje assim, de experiência. E que aí, resgata isso, assim.

E até eu venho conversando com a minha irmã, que ela tá estudando LIBRAS agora e ai ela fala disso, assim… “Irmã, você tem que aprender outros gestos. Você que faz pesquisas tem que entender e num sei o que…” E aí eu falei está bom irmã, eu vou em algum momento estudar isso. Porque tem muito a ver com a forma que você faz pesquisa. Eu já fiz, por exemplo, pesquisa com cegos. Outra forma, né? Foram seis meses de pesquisa e é outra forma de você lidar com o comportamento do outro.

Obrigada!


https://www.mergo.com.br/ux-online.html

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima