Maturidade no Mercado de UX

Como o nível de maturidade das organizações para o design impacta na implementação de uma cultura de UX.

Rodrigo Lemes, Priscilla Albuquerque e Ana Coli no painel “Maturidade do Mercado de UX”, com mediação de Bianca Fidelix na #DEXCONF19

Que saudades de abraçar UXers, não é mesmo? Enquanto ainda não é seguro fazer os nossos encontros presenciais, vamos relembrar um pouco mais?

O painel que trago aqui foi realizado no “Open Space” da #DEXCONF19, e abordou a Maturidade do Mercado de UX, ou sobre como o nível de maturidade das organizações para o design impacta na implementação de uma cultura de UX. Abaixo você acompanha o podcast + transcrição do painel que teve a participação do Rodrigo Lemes, Priscilla Albuquerque e Ana Coli, com mediação da Bianca Rosa Fidelix.

Rodrigo Lemes, Priscilla Albuquerque e Ana Coli no painel “Maturidade do Mercado de UX”, com mediação de Bianca Fidelix na #DEXCONF19

[Início da transcrição]

Aline Santos: Então, para começar esse painel sobre Maturidade do Mercado de UX eu vou chamar aqui a Ana Coli, o Rodrigo Lemes, a Priscilla Albuquerque e a nossa querida mediadora Bianca, para compor o painel.

Adriano Schmidt: Muitas palmas para eles!

Aline Santos: Então lembrem: eu vou ficar circulando por aí, é só me entregar um papelzinho, alguma anotação com as perguntas, e a gente vai.

Bianca: Bom, pessoal, boa tarde! Acho que antes de a gente iniciar aqui o nosso papo, eu gostaria que os especialistas aqui presentes fizessem uma breve apresentação, contem um pouco sobre o que vocês fazem, nome, obviamente… Acho que é isso.

Ana: Quem está na ponta começa, não é? Bom, meu nome é Ana Coli, eu sou fundadora da Saiba+, que há um ano faz parte do grupo Zoly. A Saiba+ é uma consultoria de UX e pesquisa com o usuário e hoje a gente faz parte da Zoly, que é uma agência voltada a dados, e hoje eu lidero, junto com a Carolina Leslie, a equipe de UX da agência.

Priscilla: Boa tarde, galera! Meu nome é Priscilla Albuquerque, eu sou co fundadora da Catarinas Design, e paralelo à Catarinas a gente toca o projeto SuperNova UX CULTURE, que é um programa de implementação de cultura de UX, e um curso focado em UX avançado, que é o UX Overtake, então hoje eu me divido entre essas três variações de portfólio da empresa, e a gente trabalha com perfis de clientes muito variados, então acho que vai ser legal a discussão aqui para trazer vários vieses de empresas grandes, pequenas, médias…

Rodrigo: Oi pessoal, (estou) sem voz, então está saindo alguma coisa daqui… Meu nome é Rodrigo Lemes, eu sou gerente de UX lá do banco Itaú, e tenho um canal de design chamado Design Team. Quem aqui conhece o canal? (Burburinho da plateia) Muito obrigado! Amo todos vocês! É isso.

Bianca: Bem, acho que para começar a discussão, eu tenho visto muito hoje no mercado empresas grandes e pequenas em busca de profissionais de design, renomados ou não renomados, mas sem a consciência do valor do design, então pensando nisso eu gostaria que vocês compartilhassem qual o nível de maturidade de UX hoje no mercado e como vocês acham que as empresas percebem o valor de UX?

Ana: O nível de maturidade, eu vejo que é muito variável ainda. Como a gente trabalha no formato consultoria e agência, a gente tem muito contato com a área que demanda isso dentro da agência. Dependendo da empresa, existe uma área de UX estruturada, mas ainda a grande maioria eu vejo que não, tem muitas áreas ainda que são submetidas a outras áreas, seja marketing, TI, negócios, isso varia um pouco, e aí o que eu percebo é que isso tem a ver com a maturidade do trabalho que vai ser realizado também. O que acontece é que muitas vezes quando as pessoas, dentro da própria empresa, que trabalham com UX, estão lutando internamente para mostrar a importância da área, o trabalho que a gente faz enquanto consultoria sofre um pouco disso também, então a própria pessoa tem dificuldade ou em aprovar os projetos, ou em levar os projetos adiante, porque falta essa força interna… Mas as coisas mudaram muito desde que a gente fundou a Saiba+ em 2010, desde que a gente fundou mudou bastante, hoje você vê empresas que têm áreas super estruturadas e times muito bem organizados, então há uma variedade acho que imensa, ainda. Desde que a gente faz parte do grupo da Zoly, por exemplo, a gente tem mais contato com empresas que não têm nenhuma cultura de UX, que era uma coisa que na Saiba+ já não chegava tanto, as pessoas que procuravam a gente já tinham uma cultura de UX muito forte. Hoje em dia eu vejo empresas que ainda estão lutando muito para implementar alguma cultura de UX interna, eu vejo muito, muito variado isso, e aí tem um… Já estou falando demais (risos) tem um pouco da relação com a área de negócios, o quanto o UX está alinhado com a área de negócios, o quanto isso vai virar de fato depois algum… Vai ter resultado no negócio da empresa, que eu acho que é uma discussão legal também.

Priscilla Albuquerque falando no painel “Maturidade do Mercado de UX” na #DEXCONF19

Priscilla: Até complementando isso que a Ana disse, a gente acaba vendo muito empresa que é desde produto, quando eles são menores e eles estão querendo começar a fazer isso… Então lá na Catarinas eu acabo reparando que existem duas frentes, as empresas maiores que já têm um time interno, já têm pessoas lá dentro, a maturidade está mais clara, e tem outras empresas que já estão falando sobre isso há tempo e estão se arriscando, estão começando a fazer UX, a trazer especialista de fora… Então eu diria, assim como a Ana falou da maturidade variada, eu sinto que tem muito uma iniciativa de founders querendo, sabe? Fundador, tipo, “eu quero”, só que aí na prática nem sempre ele está pronto para fazer tudo que ele precisa, então tem muito esse trabalho de ensinar o cara, de evangelizar, de mostrar que não é bem assim… Então mesmo quando ele chega pedindo “eu quero UX!”, nem sempre ele sabe o que ele está pedindo, aí a gente tem que fazer aquele “espera aí, vamos lá, o que que é isso aqui? Vamos botar todo mundo na mesma página”. Acho que rola muito disso.

Rodrigo: Todos respondem? Pode ser. O que eu acho interessante é que se pegarmos o modelo que a gente conhece de maturidade de design, como Nielsen por exemplo mostra aquela escala dos degraus, por exemplo, hoje no Brasil nós temos poucas empresas que talvez tenham alcançado o quinto degrau dentro daquele modelo, e muitas, e a maioria das empresas ainda estão ali no primeiro e segundo degrau, que são empresas que estão começando a ganhar o investimento para a área de UX, então nesse caso tem esse desenvolvimento. Mas o que eu acho interessante, que abre até uma possibilidade e que eu tenho refletido muito sobre esse assunto, é se o modelo de Nielsen, ou esses modelos de degraus por exemplo, se aplicam para o nosso mercado brasileiro! Se nós devemos discutir a maturidade de UX como por exemplo os Estados Unidos ou alguns países da Europa enxergam também. Talvez se nós analisarmos o nosso cenário, o nosso contexto de mercado, talvez a gente possa entender que a nossa maturidade de UX pode ser acima ou até abaixo daquele modelo têm pregado, então eu acho que é um ponto interessante a gente começar a discutir “qual é o modelo de maturidade que serve para a minha empresa?”, e a partir de então começar a avaliar o quanto a minha empresa é madura ou não naquele assunto, então é um assunto muito delicado. Eu achei muito interessante o que vocês trouxeram em relação a maturidade, seguindo o modelo de Nielsen por exemplo a gente enxerga exatamente esses modelos, mas eu me questiono se isso realmente serve para o mercado brasileiro, onde empresas atuam completamente diferente, situação econômica, um país emergente, e os designers do nosso mercado também agem de forma diferente, também temos situações de aprendizado e maturidade individual de cada um, então são variáveis que talvez a gente tenha que refletir para realmente dizer qual é a nossa maturidade e onde estamos. E falhou minha voz aqui no final.

Bianca: Legal. Eu acho assim, falando, pegando um pouco o gancho do que você falou sobre avaliar a maturidade das empresas, quais são esses níveis de maturidade, e como que a gente pode avaliar hoje? Tem ferramentas, metodologias, para que a gente consiga avaliar esse nível de maturidade?

Rodrigo: Eu não me lembro dos níveis de cor! Você sabe de cor? Sabe? Então a Priscilla vai falar os níveis de cor.

Priscilla: (Risos) Não, é que assim, a gente conhece o (modelo) do Nielsen, a gente olhou para vários níveis… O SuperNova, como é um programa que tenta levar as empresas para o mais para frente que elas puderem, de evolução, a gente estudou vários modelos de maturidade, então tem desde o cara que ignora, que ele acha que design é só visual; tem o cara que começa a discutir, começa a falar de UX mas não bota nada na prática, então ele está lá discutindo; tem os caras que começam a aplicar pontualmente, não têm um método frequente mas eles aplicam de vez em quando, quando dá — e nesse nível tem muito risco de regressão, porque ele pode aplicar e pode ver “ah, isso aqui não dá certo, vou voltar a fazer como eu fazia antes”; e aí tem o nível do implementando, que aí já vira processo, até o nível do distribuído, onde está em todos os níveis.

Rodrigo: Hoje pode chegar a até 7 níveis, não é? Eu cheguei a ouvir um modelo que tinha 9 níveis…

Priscilla: Muitos deles são muito similares nessa história de “o cara que está falando mas não faz”, o cara que começa fazendo de forma aleatória e o cara que faz de forma consolidada. Até fiquei curiosa que tu falou que não se aplica, e eu queria botar fogo nessa fogueira aí, porque eu consigo ver muita similaridade de vários casos de várias empresas que a gente tem contato com essas fragmentações que eu comentei agora, aí eu queria entender por que que tu acha que não se aplica.

Rodrigo: Sim. Por exemplo, a gente tem… Um exemplo bem claro: agências de propaganda. Agências de propaganda, nós temos UX Designers e UI Designers dentro de agências de propaganda. É a mesma medição para uma corporação como um banco, onde segue aqueles degraus? Não tem como! Porque a agência de propaganda é muito operacional, muito tática, e ela acaba não tendo o famoso investimento, que é um dos degraus, para que coloque o design como estratégia dentro desse cenário, então não é a mesma coisa, não tem como eu comparar, então talvez por isso a gente tenha que pensar na adaptação do modelo conforme a sua empresa, conforme o seu contexto, entendeu?

Priscilla: Agência provavelmente a Ana consegue comentar bem (risos).

Ana: Não, eu concordo que o modelo de agência é bem diferente, porque você vive disso, então essa cultura faz parte do seu dia-a-dia. O que eu ia comentar é outra coisa: o que eu acho mais difícil é você, de fato, ver empresas hoje em dia que chegam nos degraus mais altos, que são quando você de fato está bem alinhado com a estratégia de negócio da empresa. Quanto você tem métricas, quando você consegue medir o sucesso do seu trabalho, quando você tem metas para medir o sucesso do seu trabalho de UX dentro de uma estratégia de negócio… Então o que eu vejo hoje de mais difícil é chegar nesse nível, e eu acho que os designers têm que perseguir isso, porque quando você está tentando implementar uma cultura de UX dentro de uma empresa, se você não estiver alinhado à estratégia do negócio você não vai conseguir ir para frente, então você tem que provar o valor da sua área, é entender qual é o objetivo daquele negócio, entender quais são as tuas metas e todo o time tem que correr atrás das metas, e aí é você estar alinhado com os outros times, é parar de trabalhar separado, é começar a trabalhar junto, todo mundo olhando para o mesmo objetivo, senão o UX, vai acontecer isso que a Priscilla falou, você vai voltar para trás, porque a chance de retrocesso é muito grande. Eu acabei de encontrar uma ex cliente minha e ela falou que aconteceu isso na empresa dela, o time pediu demissão, um saiu, um saiu, um saiu… Todo mundo saiu! E aí, o que aconteceu com tudo que você tinha cultivado antes? Então aí é o nosso risco, eu acho que a gente tem que falar mais de negócios.

Rodrigo: Eu vi por exemplo um modelo de maturidade usado por uma empresa onde ela dividiu em apenas, digamos, dois degraus, ou apenas dois grandes lados, operacional e estratégico. Só isso. Então assim, a partir do momento em que nós deixamos, o time de UX deixou de ser operacional e fomos para estratégia, alcançamos a maturidade necessária e possível para aquela empresa. Não almejando seis, sete, ter uma diretoria, então… É dentro dessa adaptação. E aí respondendo o que ela perguntou sobre medições, para você saber, obviamente que uma das é investimento, budget, para que o time de UX, o time de design possa desenvolver. É uma das primeiras características que você consegue analisar e tirar uma medição em cima disso, então a partir de um momento em que a empresa começa a investir no time de design, já é um dos primeiros elementos métricos que você consegue notar que “beleza, estamos começando a caminhar buscando a maturidade de design”. Além disso, óbvio, é o envolvimento ponta a ponta na decisão de produto, isso também é um dos elementos pesadíssimos dessa medição de design, é só um episódio que aparece e entrega ou de ponta a ponta toda essa visão?

Priscilla: Até complementando, como tu falou ali da maturidade do designer em relação a isso, que aí tem muito disso também, a empresa, o designer, quando ele está fazendo uma atuação madura, ele consegue se posicionar estrategicamente, ele consegue ter um mindset de que ele é um facilitador e ele precisa furar a bolha do design, que eu acho que isso é um outro ponto central para tu jogar a maturidade de UX para fora, é não ficar só no núcleo de design, é tipo tu conseguir… O pessoal do marketing está tão ligado quanto você de como é que funciona, o que você está fazendo, então cabe muito ao designer abraçar essa bandeira, ser um influencer e toda aquela coisa que a gente vê em vários textos sobre isso.

Bianca: É uma abordagem super importante, não é? Porque acho que às vezes os profissionais se eximem dessa responsabilidade e acham que a maturidade é extremamente uma responsabilidade só dos líderes, dos gerentes, e tem toda uma responsabilidade de posicionamento… Acho que tem um desafio muito grande também de como lidar psicologicamente para poder se expressar e se impor… Bem, enfim, acho que é isso. A gente tem uma pergunta aqui, está direcionada para o Rodrigo: “vi no canal Design Team sobre a área de UI nas empresas. Como você olha essa área de visual crescer no mercado? Será que ficar ou migrar de UI para UX é uma opção?”.

Bianca Fidelix e Rodrigo Lemes no painel “Maturidade do Mercado de UX” na #DEXCONF19

Rodrigo: É quase a mesma pergunta de “designer precisa saber codar?”, essa é uma pergunta também pesadíssima que aparece de vez em quando. Eu acho interessante que esses dias inclusive a gente abriu uma roda de discussões que infelizmente as empresas enxergam UX como uma promoção, então o cara vem na carreira de UI de repente e beleza “vou subir, vou aumentar o salário, vou virar UX”. Cara, o que tem de empresa que faz isso… E é uma dó, porque nós precisamos do perfil de UI! Nós precisamos do design de interface cada vez mais equipado, crescendo e ganhando espaço dentro da empresa, discutindo inclusive do lado do UX, do Product ou de qualquer outro nome que apareça, então assim, pensar em uma migração tudo bem, aí vai numa questão de como o mercado está funcionando e como você quer entrar nisso, mas se tiver a chance de você não fazer essa migração e se desenvolver em carreira como um User Interface Designer, continua, por favor! Porque eu tenho medo dessa “espécie”, se é que eu posso falar assim, entrar em extinção por causa dessa forçação de barra das empresas de mudar o perfil, então assim, é difícil, por isso que tem que fazer uma medição de como que o mercado em que você está inserido está enxergando isso, mas se tiver a oportunidade de não fazer a migração… Porque eu não acho que UI deixa de pensar em UX, é esse o ponto, User Interface tem que pensar em UX tanto quanto o cara que tem o nome de UX.

Ana: Mas será que a coisa do… O que eu sinto às vezes… Porque muitas pessoas me perguntam como migrar também, mas eu sinto que elas têm mais uma necessidade de conhecer as metodologias de UX, e aí eu acho legal, porque isso faz parte da carreira, mas eu não vejo muito uma necessidade de migrar também, eu acho que você precisa das duas pontas, eu acho que o pensamento sim, o pensamento é um só, faz parte de um todo, mas a gente precisa de alguém fazendo as coisas ficarem bonitas! Isso é necessário, eu também sou a favor, concordo com você, tem que continuar.

Priscilla: Até no nosso caso, às vezes, lá todo mundo faz tudo, ninguém é só UI, a gente só tem profissionais de UX que conseguem navegar por todo o cenário, e tem gente que se identifica mais com UI, tem gente que nem tanto, mas na prática o que acontece às vezes é tipo, às vezes a parte de pesquisa e tal é muito mais… Não quero falar que é muito mais, mas às vezes ele pesa mais, então “ah, alguém quer fazer um ‘UIzinho’?”, porque querendo ou não é uma dinâmica diferente de atividade, não sei se precisa migrar, mas concordo que é interessante que o cara faça UI baseado no que ele já viu para não ficar uma coisa muito limitada, não é?

Rodrigo: Engraçado que, por exemplo na Europa, o movimento de design gráfico, dependendo do país, é tão forte quanto UX/UI, eles nem estão discutindo essas coisas, eles estão muito mais focados em design gráfico. Essa coisa da migração para UX é muito nossa, e muito aqui desse momento também, é uma coisa que a gente deve pensar. Talvez em um futuro, uma próxima fase, um próximo nível, a gente pare de se preocupar com isso, porque são coisas que não precisavam funcionar dessa forma.

Bianca: Entendi. Pessoal, eu gostaria de convidá-los a subir no palco para poder tirar as dúvidas, a gente recebeu algumas aqui, mas não fiquem inibidos, subam para a gente poder fomentar mais essa discussão, então venham tirar dúvidas.

Rodrigo: Tem um lugar ali, ó!

Bianca: É, sim, tem um lugar vazio ali! Enquanto isso, eu vou ler aqui a próxima pergunta: “vocês acham que a falta de maturidade faz com que sumam as vagas de Junior?”. Polêmico! (Risos). Sumam as vagas de Junior!

Rodrigo: Eu começo com essa? É uma pergunta perigosa, vocês estão mandando perguntas perigosas! Não, eu não acho que tem relação com a maturidade da pessoa nesse momento, longe disso, eu acho que na verdade as empresas estão — eu até falei em alguns lugares sobre isso — as empresas deturpam o perfil de Junior, na verdade, não é pela falta de maturidade ou não desse profissional, as empresas acabam exigindo Juniores que são quase Seniors, mas que, para justificar a posição e o salário, mantêm o cara lá, mas eu não sei, eu acho que a raridade de vagas não está relacionada a isso, é outra coisa, são outros problemas relacionados a vaga/maturidade.

Priscilla: Mas sim, eu vejo acontecer isso quando o cara está procurando um profissional que resolva tudo, a gente sempre vê, um passarinho que vai fazer verão lá, um cara que vai entrar para resolver tudo, e a gente, em vários cenários, cara… Não vai resolver só uma pessoa que nem tem tanta vivência — que inclusive é um argumento de porquê que a gente entra nos prospectos lá da Catarinas, cara, eu vou te entregar um time de pessoas especialistas nisso e que pode parear com o teu profissional e tal, para não esperar que a pessoa vá salvar a lavoura sozinha, então acho que rola um pouco dessa expectativa, esse anseio de que uma pessoa só vai salvar tudo. É um problema do mercado, o Junior acaba tendo que se virar ali, sofrendo, às vezes fica até frustrado porque talvez ele não vá dar conta realmente de resolver, porque ninguém resolve, não é?

Ana: Eu concordo com a Priscilla, o que acontece nas empresas é que muitas vezes os desafios são muito complexos, então você precisa de pessoas com maturidade para lidar com esses desafios, mas o Senior não vai fazer tudo sozinho! Geralmente é uma equipe liderada por um Senior. Do outro lado, o que acontece com o Junior é que, como o mercado está muito aquecido, o Junior vira Pleno muito rápido, tem essa outra questão, muitas vezes ele consegue uma vaga de Junior e aí muitas vezes ele já partiu para uma vaga Pleno, às vezes Senior, muito rapidamente, então tem abertura para Junior, mas tem essa coisa de fato dos desafios, porque muitas vezes você vai lidar com área de negócios, você vai ter que entender todo o contexto do cliente, você vai mergulhar — eu, falando como consultoria -, mas muitas vezes acontece isso, para eu desenhar uma interface eu vou ter que entender tanto o ponto de vista do usuário quanto o negócio do cliente, e essas conversas iniciais são muito de profissionais que são mais maduros, mas eu vejo esse tipo de profissional liderando um time.

Participante: Na verdade eu queria ouvir de vocês também sobre a relação da academia com a maturidade, porque a gente vê realmente muito na mão do mercado, como é que o mercado está se organizando para isso, mas existe uma produção acadêmica de pessoas pensando, e como é que isso impacta também no nosso mercado? Essa interação academia-mercado influencia de que modo, vocês vêem, na maturidade do mercado mesmo? E acho que tem aqui outras perguntas também.

Priscilla: Eu vejo um pouco da academia… Eu acabei tendo uma trajetória de ser bem mercado, eu empreendo há 8 anos, mas em algum momento eu senti necessidade de aprofundar, então eu fiz mestrado, então em algum momento da minha vida eu paralelizei, tocava a empresa, tocava o mestrado, e eu conseguia fazer muitos desses paralelos. Infelizmente no meu cenário a academia era surreal, eu olhava tipo “caraca, sério que vocês vão levar todo esse tempo para fazer isso aqui? Vocês estão de brincadeira?”, tipo, era uma pesquisa, era um teste, isso aí na vida real a gente faz de ontem para ontem, não é assim, então eu ainda acho que a academia mais tradicional, em níveis mais de mestrado e tal, ainda está um pouco distante da vida real, mas por outro lado eu vejo o movimento das pós graduações e desses cursos livres sendo sensacionais para dar um boost na carreira das pessoas, então nesse ponto de academia alternativa ou de coisas mais rápidas — eu dou aula para o pessoal da pós também, de UX, e eu consigo ver quando eles entram e quando eles saem o quanto eles estão diferentes, então eu estou achando que algumas abordagens estão conseguindo trabalhar não só na hard skill, mas no comportamento desses profissionais, mesmo porque o mercado está demandando, aí a academia está entendendo isso, e todo mundo que dá aula eu imagino que consiga tentar semear um pouco disso de posicionamento, gente, não é só aprender a fazer as coisas aqui, na minha aula eu bato muito nisso, não é só porque eu estou te ensinando isso aqui de técnico que tu não vai ter que trabalhar com um monte de outras coisas comportamentais, então acho que tem esse link que dá para fazer sendo criativo.

Rodrigo: Eu acho que a academia é fundamental para o desenvolvimento do profissional de design, ela nos alimenta de insumos que muitas vezes no queima roupa de mercado nós deixamos de olhar, então assim, o olhar da academia, onde ela consegue parar, pesquisar e trazer a psicologia, trazer métodos novos, estudos, análises, nós precisamos, o mercado precisa, e nós como designers precisamos correr atrás dessa alimentação que a academia pode nos servir. Apesar de eu concordar que muitas coisas da academia não se aplica no dia-a-dia, mas faz parte da nossa missão fazer a aplicação, eu acho fundamental a gente ter o movimento acadêmico ali de base, dos canones inclusive, escrevendo isso, para nos trazer essa energia que a gente faz a tradução disso, de como colocar isso no mercado, dentro das empresas que muitas vezes não olham, mas precisam começar a olhar, então acho que essa mecânica de maturidade é fundamental trazer dos “porões” da academia (risos).

Bianca: Bom, pessoal, a gente tem algumas perguntas aqui, como o nosso tempo já está acabando… Temos muitas perguntas! Eu vou ler aqui para dar tempo de a gente responder tudo. Beleza. “Quais dicas válidas para aplicar as ferramentas de design entre variadas especialidades? Produto, diretoria, DEV, etc”.

Ana Coli no painel “Maturidade do Mercado de UX” na #DEXCONF19

Ana: Eu tenho um exemplo, talvez ajude um pouco. Dentro da Zoly a gente tem áreas diversas, tem uma área de dados muito forte, uma área de mídia, e tem UX, pesquisa, criação, enfim, e a gente estava com um desafio dentro da empresa de automatizar alguns processos, tem algumas coisas que o pessoal de mídia faz, de alimentar planilha, em que eles tomam muito tempo em atividades muito banais, então a gente precisava produtizar coisas para facilitar o trabalho das pessoas no dia-a-dia, e a gente fez workshops! Vejam bem! Então dentro da própria empresa usar metodologia para fazer isso, a gente fez workshop, Post It para levantar problema, quais eram as principais dores das pessoas, para conseguir focar naqueles problemas e desenvolver produtos antes, eu achei que foi um jeito muito diferente de levar a cultura de UX para o resto da empresa, porque claro, eles conhecem nosso trabalho, eles viram palestra, eles viram um talk, mas no dia-a-dia o trabalho deles é outro, eles estão cumprindo outra função, então a gente usou a metodologia de pesquisa para extrair necessidades deles, é um jeito de disseminar um pouco, conseguir compartilhar essas ferramentas.

Bianca: Deixa eu ler só mais uma pergunta? “Como vocês vêem a maturidade dos profissionais que estão vindo do mercado versus os que já existem?”

Priscilla: A gente têm lidado com bastante pessoa migrando de carreira, então esse é um caso que está acontecendo… Estou vendo algumas pessoas “ah, eu vindo da moda/eu vim do jornalismo e eu quero entrar em UX, eu já tenho bagagem de outras coisas mas eu não manjo nada de design, eu não sei lógica de arquitetura nem nada disso”. Esse pessoal que está migrando, eu até sinto que existe ali um entendimento de que ele vai ter que crescer em outro lugar e ele está saindo do zero, o que eu imagino que seja um pouco… Eu até estava conversando com alguém ali, quando o pessoal já vem do design, por exemplo, vem do design gráfico impresso e ele era muito Senior em uma agência, e aí ele vem para o UX e aí ele quer validar tudo aquilo… Então esse aí é um problema que eu encontro bem frequente, de o cara “ah mas eu sou Senior, eu faço muito visual aqui e eu quero manter essa senioridade no UX”, e a gente “calma, cara, não é bem assim! Tem outras coisas aqui que você precisa navegar!”, e a gente fala que é “hora de vôo”, tem coisa que não adianta, tu não vai ganhar se tu não fizer “hora de vôo” com aquilo ali! Tu vai ter que fazer horas de pesquisa, horas de entrevista, horas de compilação, horas de arquitetura para tu conseguir abraçar. Então, eu percebo gente migrando que tem um pouco mais de humildade, mas tem gente que já é do design que está migrando que daí eu já acho que é um pouco mais delicada essa conversa.

Ana: E tem um pessoal novo que está vindo já com curso em formação, por exemplo, a gente tem pessoas de áreas correlatas, design de games por exemplo, que aí vem com um foco… Muita informação que já veio da faculdade… Acontecia com o curso de design do Senac, o design da USP, então são pessoas que já vêm com uma bagagem muito forte. Para essas pessoas eu vejo um salto muito rápido, a pessoa entra e realmente a carreira é mais… Porque ela já vem com uma base da faculdade bem forte, então o que ela precisa é prática, então você larga a pessoa no projeto e ela vai arrasar, é muito legal. Se você descobre isso antes de escolher a faculdade que você quer, “nossa, eu quero trabalhar com isso, eu vou fazer design”, eu acho que você ganha muito, os cursos estão vindo bem, bem legais, bem bons.

Gabriel: Opa, tudo bom, gente? Eu sou o Gabriel, eu sou designer da Wiz, uma empresa do ramo de seguros lá de Brasília. Voltando um pouquinho em um ponto que vocês tocaram, a gente está falando de maturidade do mercado, a gente falou sobre maturidade do profissional também… Já passei por algumas situações, acho que várias pessoas aqui também, seja de empresa grande, empresa pequena, que já tem uma ideia, às vezes já tem uma área de UX estruturada, como a minha empresa, mas às vezes não é a empresa como um todo que tem uma noção do que que um UX faz, do que que realmente o design pode trazer no âmbito estratégico e etc… Queria a percepção de vocês de… Às vezes a gente está ali, trabalhando na nossa área, ok, mas quando passa para as áreas correlatas ou começa a surgir uma squad em uma operação nova, as pessoas daquela equipe, ou de algumas equipes que estão ali fazendo pares com a gente… “Poxa, beleza, você é designer, você está fazendo uma interface, você está me ajudando na pesquisa, mas poxa, aproveita, faz esse feat de lançamento aqui para mim? Pega um infográfico, me ajuda em uma camiseta…” Sabe? A gente começa a distribuir, a ampliar demais, e essa não é exatamente a minha especialidade, então aproveitando o assunto, eu queria a percepção de vocês de como se posicionar nesses casos, como é que a gente pode levantar essa bandeira do que que é o designer, do que que é o UX, de como a gente trabalha na estratégia e não às vezes deturpando indo para outras áreas como gráfico, vídeo e etc.

Rodrigo: Só um minutinho, tem uma pergunta complementar.

Participante 2: Todo mundo fala que UX é mindset mesmo sabendo que é uma disciplina com a sua própria filosofia. Quais são as opiniões de vocês? Senão medicina também vira mindset, vocês conseguiram entender a pergunta?

Rodrigo: Nossa! (Risos) a pergunta do Gabriel e essa daqui daria para a gente ficar uma hora falando sobre esse assunto, mas eu vou tentar ser bem rápido para vocês. Deixa eu lembrar o que ele falou… Cara, sim, eu sei que é difícil a gente fazer coisas que não são devidas da área de UX como vídeos e etc, mas é importante você fazer esse tipo de coisa porque isso faz parte, você tem que fazer. Eu estou fazer PowerPoint, por exemplo, me deram PowerPoint e eu estou fazendo PowerPoint. Isso não é um problema, desde que eu mostre — o Rafael Burity fez até coraçãozinho — desde que eu consiga também fazer aquilo que cabe para a disciplina de UX dentro da empresa. Estrategicamente, de forma muito rápida, o que eu acho que você precisa fazer é: UX não é só para nós, não é só para o UX Designer, UX tem que ser um mindset para toda a empresa, isso é fato, o desenvolvedor, o vendedor, o cara de negócios, todo mundo tem que pensar na experiência do usuário. O facilitador que vai controlar essa disciplina e fazer com que ela chegue no rumo e objetivo necessário é o designer. É o designer da experiência do usuário. É esse cara que vai fazer com que a coisa possa fluir naquele que é o objetivo final da nossa profissão, mas a empresa inteira deve pensar na experiência do usuário. Para você fazer esse tipo de coisa, não dê a resposta sobre qual é a melhor experiência do usuário, mas indague a empresa em pensar sobre qual é a melhor experiência do usuário. Você vai direcionar a empresa em chegar na resposta ideal da qual você já sabe, mas você vai ajudar entregando isso para a empresa nas áreas e etc. Bem rápido e sucinto.

Bianca: Vamos lá, temos mais dois minutinhos para ler as perguntas, tem mais uma pessoa ali para perguntar. Bom, “o nosso mercado está evoluindo. Como vocês avaliam o futuro e a expansão dessa nova profissão chamada UX?”, e aí tem mais duas aqui relacionadas, “quais dicas ou quais caminhos vocês sugerem para elevar o grau de maturidade nas empresas?”. “Eu tenho uma teoria, de que UX é como a qualidade há anos e décadas atrás. Qualidade não é o papel de um departamento, é um dever de todos, UX é o mesmo. Experiência do usuário é papel de todos. Concordam?”. Qual a opinião de vocês?

Rodrigo: Provocar! Vocês querem falar de maturidade do mercado? Vocês como UX? Eu quero que vocês opinem sobre isso: o quanto a gente acha que é Deus e vai resolver o problema de todas as empresas e está atrapalhando que eles vejam a gente com maturidade?

(Aplausos da platéia)

Rodrigo: Drop the mic!

Priscilla: Não, massa! É boa essa provocação porque a gente sempre lida com a questão do ego, não é? Querendo ou não o pessoal de UX, de design, tem um pouco do ego exacerbado, e eu já vi várias críticas falando de que UX ficou tão falado e tão hype que de repente os UXers começaram a achar que eles são muito mais importantes que o resto da geral, então a gente já viu um movimento de “vamos parar com essa palhaçada porque é uma coisa para todo mundo aqui, você não é o dono da verdade!”, então acho que esse exercício de humildade tem muito a ver com, respondendo a pergunta do futuro ali, o futuro do UX, acredito, na minha visão, que vai ser uma coisa muito mais flat, que todo mundo vai ter esse mindset, “mindset, mindset, mindset…”, mas é verdade que é uma forma de pensar! Então mais áreas estão preocupadas e estão segurando essa bandeira, até para a gente fugir desse negócio de “eu sou o dono da voz do usuário”… Porra, todo mundo poderia trazer a visão do usuário, jogar na roda, trocar em cima disso! Então não deveria ser em perspectiva uma responsabilidade só do designer. Tem aquela máxima que eu adoro, que o UX ficou importante demais para ficar só na mão dos designers, então é muito verdade isso.

Ana: Boa, essa. Eu acho que essa coisa da pergunta da qualidade é muito legal, porque eu acho que é isso mesmo, a gente vê hoje as empresas mais bem sucedidas, a satisfação do cliente, o atendimento do cliente é uma preocupação da empresa inteira, tem empresas que trabalham muito bem isso, e é um pouco da coisa do UXer isso, você está pensando… Não é só você que está preocupado com a experiência que ele vai ter na sua interface, se é um mindset da empresa inteira, maiores são as suas chances de sucesso e você tira a questão do ego, porque é compartilhada essa experiência, então isso é muito legal. Linkando um pouco com a outra pergunta de tentar difundir, gente, façam pesquisa com o usuário e mostrem para a sua empresa! Não precisa contratar uma consultoria — mas se quiser, tem a minha — mas o lance é: faz um teste de guerrilha, filma e fala “olha como o cara está usando isso!”, e mostra para as pessoas, convida as pessoas para verem isso, isso é muito engajador, isso começa a mudar um pouco esse pensamento das pessoas que são resistentes à experiência, de dar valor, você consegue começar a disseminar isso, então façam teste de guerrilha, filmem — peçam permissão, lógico, para a pessoa — mas para tentar dar uma disseminada na empresa.

Bianca: Bem, pessoal, temos mais dois minutinhos, a gente meio que já extrapolou o tempo, mas vamos à última pergunta.

Suellen: Primeiro, boa tarde à todos! Meu nome é Suellen. Então, eu sou formada na área de design gráfico, eu já mandei muitos currículos para algumas empresas onde eu moro e eu fico aguardando, e às vezes a resposta que eles me dizem é que infelizmente, por eu não ter muita experiência na área de UX, eu não posso ser contratada. Mas eu sou formada, tenho uma boa experiência, estudei bastante… Daí eu fico pensando, como que seria uma forma mais fácil de eu fazer uma troca e conseguir progredir nessa área que eu me interesso muito?

Priscilla: Oi, tudo bem? Eu vejo muitas pessoas com essa mesma dificuldade, procurando a migração. Mesmo que você saiba a teoria, às vezes você conseguir fazer um curso mais voltado, que te dê um certificado e você consiga mostrar em uma entrevista de emprego, às vezes é isso que você precisa para começar a mostrar que você sabe fazer aquilo, ou então trabalhar mesmo em projetos pessoais em que você trabalha mais a parte de UX e estratégia para conseguir mostrar isso em uma entrevista. Eu vejo isso como caminhos para pelo menos conseguir uma entrevista e conseguir mostrar o seu trabalho.

Rodrigo Lemes, Priscilla Albuquerque e Ana Coli no painel “Maturidade do Mercado de UX”, com mediação de Bianca Fidelix na #DEXCONF19

Bianca: Bem, gente, infelizmente o nosso tempo acabou, mas eu espero que tenha sido muito rico para vocês e que vocês tenham gostado. Muito obrigada!

[Fim da transcrição]

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