Google e o mito da garagem

Lendo o artigo “A verdade oculta das ‘empresas de garagem’ do Vale do Silício” no El País, dois trechos me chamaram a atenção:

Há ainda a do número 232 da Santa Margarida Avenue, em Menlo Park. Essa foi alugada em 1998 por dois jovens, Larry Page e Sergei Brin, para desenvolver uma jovem empresa chamada Google. A garagem continua surpreendentemente intacta hoje. Com o tapete azul que a então proprietária da casa, Susan Wojcicki, hoje executiva-chefe do YouTube, instalou para que os inquilinos se sentissem mais à vontade. A mesa de pingue-pongue onde se distraíam.

Tudo disposto para que o mito pareça real e nada relembre que, na realidade, o Google foi fundado dois anos antes; já havia arrecadado mais de um milhão de dólares de vários investidores; e a economia que representava alugar uma garagem em vez de um escritório era risível. E mais, em janeiro de 1999, depois de apenas cinco meses pisando no tapete azul, os nove empregados do Google se mudaram para escritórios convencionais. Mas a garagem está ali, é propriedade da empresa desde 2006, e os lucros que gera em seu mito institucional são incalculáveis.

Céus! E quando eles descobrirem que as banquinhas de limonadas que as crianças americanas montam na porta de casa são subsidiadas pelas fundos familiares dos empreendedores?

Dei um bizu no pai dos burros da internet para procurar a quantidade de patentes de dois países, comparativamente, a título de curiosidade:

Pedidos de patentes em 2012:
EUA: 542815
Brasil: 30116

O que isto tem a ver com a carocha da garagem? Ela é conceitual.

Quando o Steve Jobs, lá de sua garagem criou os ícones do iOS, nenhuma reportagem veio dizer que aquela câmera não era uma câmera de verdade, mas meramente uma representação que ativava as rotinas para o celular fotografar. O ícone era conceitual. Ele contava uma história (o termo correto é “esqueomorfismo”). Seu cérebro via o ícone de câmera e imediatamente, sem precisar tirar um MBA em interfaces, sabia o que aconteceria ao clicá-lo.

É engraçado tratar um cérebro como um ente, mas ele muitas vezes funciona assim mesmo. Você não se detém numa análise detalhada que aquele ícone é de uma câmera, e não procura em todos os registros visuais de uma vida um matching de imagem para julgar que se trata de uma câmera fotográfica, nem faz alusões aos Daguerreótipos para finalmente concluir que aquilo ali é para fotografar. Seu cérebro faz isto sem você ter consciência de todos estes processos. São processos subconscientes acionados por conceitos.

Steve Jobs na juventude.
Steve Jobs na juventude.

E vejam só, o país aonde o conceito da garagem é ecoado, fez 18 pedidos de patentes, enquanto o país aonde implantam o conceito no subconsciente de que precisamos perseguir a segurança de um cargo público concursado, registrou uma patente.

A questão pode evoluir para outros conceitos arragaidos. Há tempos se questiona que a colonização protestante dos EUA determina hoje seu sucesso industrial. Embora seja tão cristão quanto a colonização brasileira, os protestantes tem uma diferença: sua conduta valoriza o trabalho como meio de aprimoramento do caráter. Já a tradição cristã ibérica passou a tradição da efemeridade da vida e que o trabalho árduo que os pobres tem que suportar será recompensado… depois de morrerem.

Não lembro de o El País trazendo reportagens dizendo que passagens cristãs (concepção imaculada, assunção de Maria ou com quem Caim teve filhos para formar a humanidade) não tem correlação com passagens bíblicas, ou mesmo passagens bíblicas não batem com registros naturais (o dia que Terra parou, o dilúvio, ou o tal do Apocalipse), mas ainda assim, as estórias inspiraram o empreendedorismo nos EUA.

Nossos cérebros tem uma linguagem poderosa de conexão: são metáforas, conceitos e estórias. Ninguém nunca disse que eles precisavam ter reflexo na realidade. Elas só precisavam acionar nossos cérebros para implantar uma ideia.

Novamente: o país que implantou a ideia do empreendedorismo de garagem pediu o registro de 18 patentes enquanto o país aonde trabalhar é fardo de pobres, pediu um registro.

Naturalmente, os EUA não registra mais patentes só por causa do mito da garagem (a China não o tem até aonde eu saiba, e registram muito mais). Mas eu só estava plantando uma ideia sobre a importância de cultura que estimula ideias empreendedoras.

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