A história da UX no Brasil — #DEXCONF19

Painel falando sobre a história da profissão no contexto brasileiro, e como a área foi evoluindo pelo meio acadêmico, agências e eventos.

Uma mulher branca e três homens brancos sentados em cadeiras num palco com um telão de fundo, conversando com um microfone.
Guilhermo Reis, Horácio Soares e Fred Van Amstel no painel “A história da UX no Brasil”, com mediação de Melina Alves na #DEXCONF19

Chegou a hora de publicar mais um painel realizado no “Open Space” da #DEXCONF19, e esse foi o painel que encerrou o evento! Segue abaixo o podcast + transcrição do painel “A história do UX no Brasil”, falando sobre a história da nossa profissão no contexto brasileiro, e como a área foi evoluindo pelo meio acadêmico, agências e eventos. Com participação de Guilhermo Reis, Frederick van Amstel e Horacio Soares, com mediação da Melina Alves, e ainda uma pergunta/contribuição do Luli Radfahrer.


https://soundcloud.com/dexconf/a-historia-da-ux-no-brasil

Foto de rosto de três homens brancos sobre um fundo com uma montagem colorida e título do painel.
Guilhermo Reis, Horácio Soares e Fred Van Amstel no painel “A história da UX no Brasil”, com mediação de Melina Alves na #DEXCONF19

[Início da transcrição]

Aline Santos: A gente vai falar sobre A História do UX no Brasil.

Adriano Schmidt: UX. de UX.

Aline Santos: Para mediar essa conversa vamos chamar Melina Alves novamente ao palco.

Adriano Schmidt: Vem, Melina!

Aline Santos: E os especialistas…

Adriano Schmidt: E só especialista foda, olha só! Só a galera de peso, mesmo!

Aline Santos: O Guilhermo Reis, o Fred Van Amstel e o Horácio Soares. Pode vir para cá, gente. Palmas para os painelistas!

(Salva de palmas do público)

Melina: Falar de história de UX com vocês vai ser… Meu… Arraso! Aqui a gente tem… Eu acho que vale a apresentação de todo mundo, eu acho que aqui a gente tem um time de foundations aqui, de pessoas que criaram, na verdade, uma cultura brasileira de UX, que eu acho que são… Essa palavra tem um viés negativo, “evangelista”, mas na verdade se a gente olhar por um outro aspecto, esse princípio é fundamental para o que a gente quer desenvolver como futuro. E eu queria que a gente conversasse um pouquinho a respeito disso no sentido de qual é a principal necessidade desses princípios de conhecimento que vocês acreditam que, ou da nova geração, ou do mercado, na sensibilidade e na história de vocês quanto profissionais, o que vocês acham que está faltando? O que que está faltando?

Guilhermo: Boa tarde. Alô? Todo mundo ouve? Alô? Estão ouvindo? Estão ouvindo? Beleza. Boa tarde, pessoal. Honestamente eu nunca imaginei que um dia na minha vida eu ia dar uma palestra como um dos fundadores de uma área (risos), nunca, nunca. Bom, nesse ponto que você está falando aqui, o que que talvez falta para o profissional… É difícil de falar um pouco o que que é do futuro, eu diria um pouco de como é que foi a evolução da área aqui. Muito da área começou como uma questão de curiosidade, o pessoal percebeu que existia uma coisa nova de se preocupar com o ser humano na hora que estava desenhando sistemas, e houve um trabalho muito grande de curiosidade e de autodidata, as pessoas foram muito autodidatas no começo, de ir tateando e descobrindo essa área, o Érico até falou isso daí um pouco ontem. Isso eu acho que é uma coisa importante para quem está começando, sempre ser curioso, falar assim “eu quero explorar um campo novo”. Por mais que a gente fale assim “ah, já estamos falando de história da UX”, ainda é uma área que está em formação, é uma área que ainda tem um corpo em formação, então é diferente de você pegar, sei lá, matemática, que já existe toda uma linha de o que você tem que estudar, a nossa área ainda está em formação, então essa curiosidade, esse querer saber que eu acho que é uma das coisas que moveu a gente lá atrás e que eu acho que continua movendo os profissionais hoje.

Melina: Vou puxar aqui para o Horácio, a gente estava conversando agora sobre uma palavra que é muito comum na parte de sistema, que é a “simetria de informação”. O que que a “simetria de informação” faz com a gente? As tags, as palavras vão mudando, novos profissionais vão fazendo parte da cultura de UX, mas os princípios básicos não chegam, não caminham no mesmo ponto, então muita gente que está chegando agora tem uma parte do glossário de UX, até da interpretação desse glossário, que não caminhou, então isso faz com que esses profissionais também percam um pouco os princípios básicos dessa formação, e também que são super importantes. Você criou um card a respeito disso, não é? O que você acha disso, Horácio? Qual foi a intenção? O que você acha desse movimento aí?

Guilhermo: Pessoal, na boa, tudo que a gente fez foi organizar alguns happy hours e juntar a galera para tomar cerveja, tá? Não é isso daí tudo não, foi assim que nasceu o negócio (risos).

Horácio: Pois é, eu acho que a gente teve na verdade a oportunidade de começar a capear, a limpar um pouquinho o terreno que estava abandonado de experiência do usuário, que não existia, na nossa época não existia isso de experiência do usuário, a gente participava de um encontro de arquitetura da informação…

Melina: É.

Horácio: …Que, infelizmente, muitos dos UX Designers de hoje em dia não sabem se é de comer ou de passar no cabelo, não é? Fato. Acho que é isso. Arquitetura da informação, que é um dos chapéus do “EXU”, ou seja, a entidade mais próxima do usuário, termo cunhado pelo Fred — o que é, de fato, não é? — a arquitetura da informação é a base da estrutura do que você pretende que as pessoas utilizem, e na maioria das vezes você vê um designer lá, depois de discutir um pouquinho, de discutir no papel alguma coisa, o cara já começa a desenhar direto as telas no Sketch, ou no Figma ou… Tem gente que desenha ainda no Photoshop, tela… Cara, sem pensar que existem fluxos a serem desenhados, taxonomias a serem criadas, para qual modelo mental? Como as pessoas acham que vão encontrar isso? Cara, nosso modelo mental é completamente diferente do modelo mental de quem vai usar o nosso produto, mesmo você sendo do mesmo… Achando que você é parecido com aquele público, então a gente tem que parar de achar. Eu acho que o bacana da nossa época é que, como a gente não sabia nada, não tinha nada, a gente não achava nada, a gente procurava técnicas e procurava academia, bebia na academia, e a gente tinha a necessidade de se encontrar para trocar experiência! “Gente, você aplicou um card sorting?”. Aliás, o seguinte, quem aqui já aplicou um card sorting levanta a mão! Pô, até que…

Melina: Ó…

Horácio: Olha… Que é algo cada vez mais raro. Teve uma pesquisa, acho que você falou de uma pesquisa, que Panorama UX é uma das técnicas menos utilizadas, e ela ajuda a gente a entender qual o modelo mental das pessoas (para) que a gente está projetando. Então tipo, você está tentando entender como elas pensam para que você organize as informações de uma forma que elas encontrem de forma mais facilitada. A gente tem um crescimento de oportunidades de experiência do usuário no Brasil e isso está fazendo com que muitos designers virem UX Designers, excelentes visual designers e UI Designers e etc, só que existe um longo caminho também de pesquisa, de testes, de uma série de técnicas que são necessárias que a gente aprenda de fato a entender as diferentes fases do negócio. O designer de experiência do usuário norteia todas as fases do projeto, da concepção do produto — ou seja, ele tem que ser o investigador que vai lá entender qual é o fio da meada, qual é a real missão daquele produto, e ele começa a conceber aquilo com a missão de stakeholders, de clientes, e ele tem que prototipar, testar, ele tem que validar hipóteses, ele tem que criar algo, lançar o MVP, testar aquilo, ver se funcionou, não funcionou, pivotar, mudar, lançar o produto e acompanhar o crescimento desse produto para entender se ele está dando o retorno esperado, olhar as métricas, então são diferentes papéis que a gente tem que usar diferentes… Eu brinco que a história do cards é o cinto de utilidades do Batman, “qual utilidade eu preciso tirar do bolsinho aqui? Qual a técnica que eu tenho que usar em qual momento?”, é o grande desafio, e a experiência traz um pouquinho isso para a gente.

Melina: Fred, vou puxar para você um pouco da história “Brasil versus mundo”, porque você, além de ser um evangelista aqui também, participou mesmo dessa fundação dos princípios de conhecimento, você puxou muito para o design de interação, e o design de interação… Você falou da arquitetura da informação como princípio básico de conhecimento de UX. O Dan Saffer, ele já caminhou… Ele montou um diagrama em que a arquitetura da informação era o princípio, em 2006, e nessa revisão do diagrama ele colocou o design de interação como a chave desse conhecimento, a partir de 2013, mais ou menos, e eu queria um pouquinho dessa sua experiência nacional, internacional, dessa relação dos princípios, como essa história está caminhando por aqui, de que forma isso está presente em outros países… Conta um pouquinho para a gente.

Homem branco de cabelo comprido preso e óculos. Sentado segurando um microfone com um telão atrás dele.
Fred Van Amstel na #DEXCONF19

Fred: Bom, esse conceito de experiência do usuário hoje, que a gente utiliza, é um conceito importado, muitas vezes como “user experience”, e aí a gente vai traduzir e falar como “experiência do usuário” mas vai manter o acrônimo “UX”. Como assim “experiência do usuário”… O que que é isso, “UX”? Não, se você fala “experiência do usuário” você tem que traduzir o acrônimo também como “EXU”, então quando eu falo… Eu fiz essa brincadeira com o Horácio e com outras pessoas, que depois virou camiseta, eu queria demonstrar a importância de a gente ter uma visão crítica a respeito das ideias que vêm de fora do nosso país, porque nem sempre essas ideias são relevantes, e tem a ver com as nossas rotinas e também com a nossa cultura, então o EXU é essa entidade que está mais próxima do usuário, como diz o Horácio, mas ele também é a entidade, um Orixá da comunicação, um Orixá que muitas vezes não é compreendido, mas que ele pede para que a gente o compreenda. Essa compreensão, essa busca por algo que seja inspirador é uma motivação importantíssima para a nossa área, e o que é o que nos inspira e que está se perdendo de uma certa maneira? O usuário. A gente, antigamente… Entrou nessa área, fundou essa área lá no final dos anos 90, começo dos anos 2000, não é porque a gente queria um salário melhor, porque a gente queria fazer alguma coisa diferente na nossa carreira ou porque a gente achava legal o assunto, a gente simplesmente se condoía com as pessoas que não conseguiam utilizar as ferramentas de tecnologia da informação. A gente via nossos avós, a gente via pessoas que às vezes eram jovens e tinham um monte de conhecimento, ou especialistas que sabiam muito sobre um assunto, não conseguiam utilizar uma ferramenta feita para ele, e isso doía na gente, a gente sabia que tinha como fazer melhor mas, ao trazer essas metodologias técnicas importadas, a gente viu que isso não necessariamente funcionava, então a gente precisa muito ter essa consciência crítica e tentar… Digamos assim, adaptar os conceitos para a nossa realidade.

Melina: Adaptar… Essa adaptação, eu vou fazer uma provocação até… Ali, Luli, vai lá.

Fred: Luli, quer falar, Luli?

Melina: Luli! Vem cá, Luli, vem cá! Senta aqui!

Luli Radfahrer: Com licença, oi, gente, desculpa! Eu acabei de entrar na área! Eu estou começando agora!

(Todos riem)

Homem grisalho e óculos sentado na platéia falando no microfone, com uma mulher negra a direita e um homem branco a esquerda.
Luli Radfahrer na #DEXCONF19

Luli: Mas eu queria saber uma coisa, porque assim… Vocês três… Eu conheço vocês três, considero para caramba, nem bebi e já considero! Mas assim… Vamos começar com o lado ruim, e você vão, obviamente, melhorar essa situação. É muito fácil você ser tipo Casagrande, não é? Aquele ex jogador em atividade, barrigudo, falando como era glorioso o tempo do Emerson Fittipaldi… Isso é tudo lindo! E não há dúvidas de que vocês todos são absolutamente geniais e moram no meu ventrículo direito, mas… Não é? Eu sou baixinho, e baixinho tem o coração preto e peludo. A minha pergunta é muito simples: vinte anos atrás — o Horácio não era nascido, mas vocês dois já estavam trabalhando — vinte anos atrás vocês falavam coisas que eram consideradas chinês pelos caras e hoje virou mainstream. Se você pegar um texto seu de quinze anos atrás, vinte anos atrás e trazer para hoje, a pessoa vai falar “porra, é óbvio”. A minha pergunta é o seguinte — e eu faço essa pergunta exatamente porque tem três caras ali que, se eu nascesse de novo, eu queria ser um de vocês três — a minha pergunta é muito simples: como que hoje, em 2020, você pensa o mundo de 2035? Quer dizer, o que que é óbvio para vocês? Porque exatamente, eu sei que vocês não são o ex jogador barrigudo, então vocês continuam em extrema atividade. O que que inquieta vocês hoje que para a maior parte das pessoas aqui é, sei lá, ficção científica, mas que vai entrar no mainstream muito rápido e que deve ser preocupação deles?

Melina: Quem vai começar? (Risos)

Guilhermo: Caramba, responder pergunta do Luli!

Melina: Ai, ai, ai!

Guilhermo: Nunca achei que fosse falar sobre a fundação de uma área e responder uma pergunta do Luli, cara!

(Todos riem)

Guilhermo: Ó, Luli, é o seguinte, acho que para mim tem três coisas que me inquietam muito, nisso daí. A primeira coisa é: a gente sempre vê um monte de tecnologia, está todo dia surgindo tecnologia nova, e todo dia eu vejo coisas mais malucas ainda, então por exemplo, uma que eu estava até falando com o Fred, que se um dia eu conseguir fazer doutorado eu tenho vontade de estudar interfaces cerebrais. Está sempre surgindo coisas malucas… Eu já vi gente que estuda tatuagem interativa, ou seja, sempre está surgindo coisas novas, então acho que a primeira inquietude é: você tem que estar querendo entender e explorar os limites da tecnologia. Essa eu acho que é a primeira inquietude que, como profissional, eu tenho, querer explorar esses limites da tecnologia, mas explorar esses limites para que seja útil, para que seja útil para as pessoas! Isso é uma das coisas que também sempre me moveu nos meus projetos. Um dos grandes orgulhos que eu tenho de ter trabalhado no Globoplay, forte do Globoplay, é que qualquer projeto em que você trabalha, de vez em quando aparece lá reunião de discussão e falavam assim “ah, mas a minha mãe não usaria isso!”. Quando eu estava na Catho, uma vez o diretor falou “a minha mãe não usaria a Catho”, e eu falei assim “a minha também não, ela é professora aposentada, ela não vai usar um site de emprego!”, mas eu tive a sorte de trabalhar em um produto que minha mãe usa! Eu tive essa sorte, e minha mãe era uma das personas que eu pensava logo que eu estava trabalhando no projeto, e eu acho que essa é a grande beleza da nossa área, de você conseguir pegar a tecnologia e transformar ela em algo útil para as pessoas. Para mim, o computador é a terceira invenção mais importante da história da humanidade, a primeira foi a escrita, a segunda a imprensa de Gutenberg e a terceira o computador. Essas três invenções fizeram a gente mudar, a gente antes era pré história e virou história, a gente antes era Idade das Trevas e virou o Renascimento, e a gente está tendo a sorte de viver essa terceira invenção, e ela só funciona se muita gente usar, e faz parte do nosso papel. Isso é uma das coisas que, talvez até inconscientemente, movia a gente lá atrás e tem que mover a gente hoje, como fazer com que você tenha um monte de gente usando isso daí? E o terceiro ponto, que acaba tendo que embasar tudo isso, é: isso precisa ser viável, tecnicamente e financeiramente, então você tem que pensar em negócios e tudo mais, mas com esse olhar de falar assim “eu quero pegar a tecnologia e ajudar as pessoas!”.

Melina: Duas coisas que eu acho que são importantes dentro da pergunta e do que ele falou: uma, inteligência artificial, quando a gente não tem uma interface mediando o processo de interação, falando sobre o futuro, a gente está falando de sound design, a gente está falando de controle de gestos, a gente está falando de abrir portas e espaços com biometria, com íris, enfim, com uma série de outros códigos, e uma série de interfaces, internet das coisas… Então a gente está antecipando uma visão de futuro que é muito mais plural do que todo mundo aqui, então UX… Acho que o primeiro ponto é: sai da casinha e vai olhar para a janela. O segundo ponto, que é a respeito do mercado nacional, que o Fred comentou, puxando para não perder esse gancho, que é a respeito da cultura nacional e o impacto da cultura nacional na revisão dos processos. A gente copia demais! A gente copia demais processos. “Ah, é Lean UX porque tem o cara que escreveu…”, a gente tem uma ótica tupiniquim de não valorizar as nossas próprias criações, não é? Então a gente tem uma visão de que tudo que vem de fora é melhor do que está de dentro, então esse evento, é um evento nacional, quem está falando aqui são brasileiros, e somos maravilhosos! Vocês são uma plateia incrível! E acho que a gente tem que fazer mais essa valorização da rede, da comunidade, como uma comunidade que pode sim criar caminhos, e principalmente esbarrando em uma questão, que é a colaboratividade, que é o que o brasileiro tem por essência, e a gente está falando muito de inclusão, multidisciplinaridade, como a gente pode deixar por exemplo o Lean UX mais colaborativo? Como a gente pode deixar um processo de Design Thinking mais aberto? Como a gente pode fazer com que todas essas escolas e essas metodologias possam ter um aspecto um pouco mais nacional? E valorizar isso.

Fred: Bom, eu vou recuperar um pouquinho da nossa história, já que a gente está aqui para isso, para chegar no futuro. Rapidamente fazendo um rewind, anos 90, internet nova mídia, pessoal começa a tratar como mídia antiga e fazer do impresso para o digital, não é? Essa época era triste, as páginas web eram cheias de gráfico, cheias de visual, porque finalmente o designer gráfico tinha a liberdade que ele queria para fazer as peças gráficas como queria, porque implicava em um custo de produção maior, então (era) um show de cores, porque antigamente botar mais cores em uma produção gráfica custava mais caro, e aí, desse paradigma visual, a partir do começo dos anos 2000, começa a dar lugar ao paradigma da informação, e aí começa a discussão sobre arquitetura da informação, sobre estruturar… Porque o website não era um folder, não era um banner, não era um outdoor interativo, ele era um sistema de informação, e aí do paradigma de arquitetura da informação a gente foi, a partir da metade dos anos 2000, para o paradigma da interação, principalmente na esteira das redes sociais, como Orkut, por exemplo, o saudoso Orkut, e aí a gente percebeu que a internet era um meio de interação. Foi nesse momento então que a gente funda o Instituto Faber Ludens… O Erico, que estava aqui ontem, foi meu companheiro nessa empreitada, justamente para trazer essa questão, jogar essa questão e também atropofagizar, trazer para a nossa cultura brasileira o design de interação. Depois, quando eu fui para a Holanda, fiz o doutorado e voltei, nesse meio do caminho mudou o termo, virou de “design de interação” para “UX”, e aí começou toda aquela questão de tradução que eu comentei… Nós estamos hoje ainda nesse paradigma das experiências. Qual seria o próximo paradigma? Bom, eu estou reunido com os meus colegas professores da Universidade Tecnológica já há alguns meses para pensar nisso, e a gente está montando um programa de mestrado com foco em relações, então a gente está imaginando que o futuro de projetos voltados para relações de longo prazo, porque um dos grandes problemas, uma das grandes carências que nós temos hoje e que a tecnologia é uma das grandes culpadas por estar nos deprivando são de relações. Relações de várias coisas, não só relações humanas, relações amorosas, afetivas, porque com as redes sociais isso se transforma em número, e quando é número não é relação, mas também relações simbólicas, relações de sentido. Relações são algo que valem mais que a experiência, porque a experiência é algo fugaz, você termina esse evento aqui, você passou por uma experiência, mas o que fica? As relações que você cultivou nesse evento, as pessoas que você reencontrou ou que você conheceu, é isso que vai gerar valor na sua vida, então eu imagino muito mais um design voltado para relações como sendo o próximo passo dessa nossa disciplina.

Palco com uma mulher e três homens, todos brancos sentados com telão ao fundo, Diante de uma platéia de pessoas sentadas.
Guilhermo Reis, Horácio Soares e Fred Van Amstel no painel “A história da UX no Brasil”, com mediação de Melina Alves na #DEXCONF19

Melina: Maravilha.

Horácio: Deixa eu “desfritar” o cérebro aqui, porque o Fred falando… Eu não sei o que que vai ter no futuro, mas eu tenho uma esperança muito grande que as desigualdades comecem a desmoronar. Que as pessoas tenham direito a ter acesso à informação, à educação, independente de classes sociais, independente de dificuldades ou barreiras que elas tenham. Eu vejo o futuro como sendo… Cara, não existe mais… Você vai entrar em um emprego — um emprego não, você vai entrar em uma oportunidade de trazer a sua experiência de trabalho, ninguém vai te perguntar qual é sua formação, em qual faculdade você estudou, ou qual é sua religião, enfim, ou qualquer outra coisa, não, o que que você sabe fazer? Eu tenho um caso interessante, no início dos anos 2000, que eu fiz uma call via Skype, só tinha Skype na época, eu tinha trinta e poucos anos, o Fred tinha vinte anos, vinte e um anos, e tinha um senhorzinho de sessenta e cinco anos do outro lado da linha conversando com a gente, e a gente conversou de igual para igual. Bacana que naquela época a internet era democrática. Eu vejo o futuro da tecnologia como sendo democracia. Democracia de fato, não existir diferenças, não existir discriminação, não existir barreiras que impeçam que as pessoas, independente de quem elas sejam, de onde elas estejam, de fazer e poder criar coisas. E esse cara, o senhorzinho de sessenta e cinco, hoje deve estar com setenta e cinco ou quase oitenta, se chamava Maurício Silva e, (para) quem não conhece, é o Maujor. Maujor é o cara que mais produziu conteúdo do W3C, o órgão que regulamenta a internet no Brasil. É um aposentado do IME (Instituto Militar de Engenharia), que já produziu mais de quinze livros. O cara é um absurdo! E a gente conversou de igual para igual, eu tinha trinta e poucos, ele tinha sessenta e poucos, e o Fred tinha vinte anos, cara, a gente conversou e foram horas de conversa e a gente não sentiu a hora passar, e ninguém olhou “mas é um menino de vinte anos conversando com um senhorzinho de sessenta e cinco?”. É isso, eu espero o futuro da tecnologia como sendo isso. Eu acho que a experiência, o nosso desafio como experiência, é levar isso, é fazer com que a tecnologia diminua essa desigualdade.

Melina: Você acha que a gente como profissionais, como comunidade de UX, tem o dever de ser essa baliza ética entre o caminho do negócio, da tecnologia, e das relações interpessoais? De repente pode ser uma dica, uma democratização da informação, do conhecimento e dos processos de UX, até como forma de provocar cultura de trabalho centrada no usuário para que a gente possa um dia, quem sabe, definir qual é essa ética, ou esse bom senso, se é que ele existe, não é? Porque o bom senso é muito difícil…

Horácio: É o seu senso, é o meu senso, é o senso comum. Qual é o senso?

Melina: Qual é o senso, não é? Qual é o senso comum que a gente pode estabelecer. Acho que o diálogo é o princípio disso. O que vocês acham? O que vocês querem comentar a respeito?

Horácio: Só um… Eu passo a bola, assim… O que eu tento fazer como gerente de produto, eu sou um EXU, eu passei a vida inteira sendo arquiteto da informação, especialista em usabilidade e acessibilidade e depois me tornei um EXU e hoje sou gerente de produto, mas quando a gente faz um produto a gente tem o definition of tone, ou seja, a gente de fato entregou algo quando segue alguns requisitos, então é 70% de testes de automatizados e tem que seguir as diretrizes de acessibilidade, então o básico a gente está fazendo, e testar com pessoas. O básico é isso, que a gente tem que fazer, só que a gente pode fazer muito mais, a gente pode estar muito mais centrado em de fato em entender quais são as dores das pessoas e resolver essas dores. Quando a gente de fato consegue resolver a dor de alguém, cara, o business vem junto, a tecnologia ajuda, então acaba não sendo um contra o outro.

Melina: E o que você vêem a respeito do mundo dos negócios que coloca UX como CX? “Customer Experience”? E também essa entrada do universo da comunicação dentro da área de User Experience da minha experiência um pouco enviesada e trazendo ainda muito voltada a awareness para cadeia de produto, quebrando um pouco a ótica desse senso do outro, do tempo das coisas… O que que vocês querem comentar a respeito disso, até a partir da experiência de vocês, e como caminho para que essa história também pode ou não seguir?

Fred: Nós temos um problema sério ético na nossa profissão, que a gente tem tratado as pessoas como usuários, e o Luli já lembrou em uma palestra dele muitos anos atrás que só existem duas indústrias que tratavam as pessoas como usuárias, uma delas é o tráfico de drogas e a outra delas é a nossa profissão. E enfim, quando você trata uma pessoa como usuário, você espera que dela apenas venha o uso, você não espera que ela seja mais do que isso, que ela tenha uma vida, que ela tenha uma história, que ela tenha uma cultura, porque você só está interessado no uso dela, então esse foco muito restrito naquilo que a pessoa faz quando ela está em um laboratório de um teste de usabilidade nos fez perder um pouquinho o foco de que aquilo ali são pessoas, e pessoas têm histórias de vida, e histórias de vida são necessariamente complexas, complicadas, e quando a gente passa para uma outra denominação como “cliente”…

Melina: Ou “consumidores”, inclusive.

Fred: Ou “consumidores”, são relações diferentes que a gente vai desenvolver com essas pessoas. Se a gente trata como “usuários”, as pessoas vão usar, se a gente trata como “consumidores”, as pessoas vão consumir, e se consumir for ok então a gente vai acabar com os recursos naturais do nosso planeta! Porque se a gente gera consumidores, se a gente forma consumidores nas nossas escolas, se a gente produz mídia para que as pessoas apenas consumam, vai chegar uma hora que vai acabar o que tem para ser consumido. E cliente, que tipo de relacionamento você desenvolve com clientes? O cliente manda e você faz o que o cliente pediu, uma relação de serviço, então “o cliente tem sempre razão”. O que que é isso? Você está mimando as pessoas — que é outro termo também que o Luli falou dez anos atrás e que agora está caindo a ficha. A gente está criando uma geração de usuários, ou clientes, mimados, que querem porque querem que as coisas sejam feitas daquele jeito e que não estão nem aí se nessa exigência dele — porque afinal, têm sempre razão — estejam sendo reproduzidos preconceitos como racismo, xenofobia, que são terríveis e que não vão gerar uma sociedade com melhores relacionamentos, na verdade eles vão carcomer os relacionamentos que estão por aí, e a gente vê que os sistemas digitais estão na verdade ampliando ainda mais essa postura de clientelismo crítico, e um crítico que às vezes nem considera que uma outra pessoa está ouvindo a sua crítica, então você vai no Twitter para xingar muito, para você não interessa se uma pessoa vai perder o emprego por causa do seu xingamento, você não está nem aí para isso, e isso eu acho que é justamente o inverso do que a gente estava querendo no começo dessa nossa profissão, que era valorizar as pessoas.

(Salva de palmas da plateia)

Melina: Gente… Comovente…

Homem branco de camisa branca, usando uma credencial no pescoço, sentado segurando um microfone com um telão ao fundo.
Guilhermo Reis na na #DEXCONF19

Guilhermo: Concordo em gênero, número e grau, eu acho que a gente sempre tem que ter um olhar atento ao que a gente está fazendo, o produto que a gente está gerando, o quanto que a gente está respeitando o nosso usuário e tudo mais. Teve uma palestra hoje que era sobre a parte de psicologia. Quem aqui assistindo a palestra não pensou em umas três ou quatro formas de “ah, eu vou fazer isso para converter mais”, “eu vou fazer isso para pegar mais usuários”…

Melina: “Qual é a minha métrica?”.

Guilhermo: “Vou fazer isso para bater minha meta… Opa! Aprendi que isso daqui…”, então aquilo que ele falou por exemplo, você coloca o botão lá “não gosto de desconto”, eu vou fazer o cara querer colocar o e-mail. Eu acho que a gente tem que ter esse cuidado, qual que é o limite da nossa ética? E isso vale em tudo na hora que você está projetando. Teve uma palestra bacana com o livro “Tragic Design: The Impact Of Bad Product” que teve lá em Florianópolis, tem uma foto que eu achei bem marcante, que mostra um banco de praça, que é um banco comprido, só que o banco tem braços no meio. Aquele banco… Não dá para um mendigo dormir naquele banco. Quem projetou aquilo talvez tenha pensado em uma forma intencional de fazer isso daí, e é uma coisa que a gente tem que pensar, porque a gente pode fazer uma usabilidade para o mau, a gente pode aplicar todos esses conceitos que a gente tem para o mau, então a gente tem que ter essa consciência de realmente conseguir criar um mundo inclusivo, um mundo onde a gente consiga ter mais pessoas que tenham acesso a essa tecnologia maravilhosa que a gente está desenvolvendo.

Melina: E aí eu volto no gancho do começo da conversa, de como a fundação dos princípios é importante, a gente ficar atento para seguir não só o que é trending topics, o que todo mundo está falando, e a gente deixar de ouvir a história, de onde que isso foi fundado, de que forma isso… Então a gente tem uma mania de achar que tudo que é novo é melhor, e essa construção é que é importante, porque isso vai dar para que toda a comunidade, para os especialistas, um poder de argumentação, porque cada vez mais a gente vai ser exigido nessa correlação da argumentação entre negócio, tecnologia e as relações. Quanto tempo temos? Três minutos? “Bora”. Pode seguir, Fred.

Fred: Então, uma coisa que eu acho importante é que no começo da profissão a gente era agnóstico em relação à tecnologia, e a gente tentava parar o bonde. Vinha a AJAX, vinha HTML novo, vinha CSS novo, e a gente falava “para tudo! Vamos pensar primeiro no que que acrescenta valor para o usuário!”. A gente não era early adopter de tecnologia, a gente não estava sempre comprando os últimos, porque a gente queria justamente primeiro ver criticamente essas novas tecnologias. Curiosamente, a nossa profissão agora tem ciclos de novas ideias e novos conceitos, principalmente relacionados a métodos — agora é o tal do Lean UX, Design Sprint -, e a gente está reproduzindo essa mesma ideia! Não são essas soluções mágicas, essas tecnologias que vão realmente gerar valor, o que vai gerar valor é um trabalho de longo prazo, que vai envolver a gente negociar, a gente debater com as pessoas, conversar, que é uma coisa também que o pessoal não está mais querendo, está com medo, não é? “Ah, não dá para a gente convencer os nossos colegas de trabalho, meu chefe só fala em lucro…”, mas você não consegue falar em lucro também? Você não consegue mostrar outro tipo de resultados? Quer dizer, a gente fez esse trabalho, quando não existia essa área obviamente que a gente teve que convencer nossos chefes a nos dar espaço, então conversem com esses profissionais mais antigos e permitem que a cultura de UX não seja uma cultura sincrônica, quer dizer, uma cultura de tempo, de vocês estarem aqui ao mesmo tempo vivendo a cultura de UX, mas seja uma cultura diacrônica, que ela tenha uma permanência ao longo das décadas, de geração para geração. Conversem com os velhinhos aqui! Nós não somos chatos, não!

Melina: Não morde!

Fred: A gente não morde! (Risos)

Melina: E também tem uma questão que é assim: os grandes já estão fazendo isso, o Google criou uma série de padrões de interação para que as pessoas saiam do ambiente digital, porque eles já perceberam que o processo de… A doença do século é uma doença tecnológica, ela é uma doença mental, uma doença da relação das pessoas com o uso da tecnologia de uma maneira desumana, então até que ponto a gamificação é legal? Até que ponto… Os grandes, os grandes já estão inclusive falando “poxa, agora você tem que entrar aqui, mas você tem que parar um pouquinho! Vai descansar!”, Netflix, YouTube… Às vezes “poxa, será que você/a sua criança já não viu isso muito tempo?”. Qual a hora de acelerar e qual a hora de desacelerar? Não é? Isso eu acho que é importante a gente ter sempre em mente.

Homem branco careca e de óculos, de camiseta preta e calça rasgada, sentado segurando um microfone com um telão ao fundo.
Horácio Soares na na #DEXCONF19

Horácio: Sim, verdade, concordo com você. E pegando um pouquinho o gancho do que o Fred falou, acho extremamente importante que a gente saber o seguinte: a gente está em uma época de coaching disso, de… O Fred estava comentando da “web 2.0”, foi o único momento em que isso fez algum sentido, que de fato a gente saiu de uma web estática, corporativa, para uma web colaborativa, com um design mais clean, então sim, ali foi 2.0 e acabou ali. “Management 3.0” e não sei o quê, “Design Sprint 5.0”, cara… Bullshit! Então assim, não existem gurus, não existe receita de bolo! A receita de bolo que a minha mãe faz lá em casa tem ingredientes diferentes, panelas diferentes, o fogo é diferente… A panelinha dela de madeira é só dela! Não vai ficar igual em outro lugar! Então cada caso é um caso. Eu acho que quanto maior a experiência que a gente tem como profissional, mais a gente sabe que não sabe nada, a gente entra mais humilde na brincadeira, com mais vontade de aprender, então assim, a gente tem que usar um pouquinho as ferramentas e as técnicas para ajudar a gente a descobrir qual o melhor caminho, e parar de copiar e colar modelos americanos, parar de copiar e colar novos acrônimos e novas tecnicazinhas disso e daquilo, cara, estudar é sempre bom, mas vamos olhar lá atrás que… Caramba, o pessoal faz curso de tudo, mas quantos UX Designers fizeram curso, de fato, de Arquitetura da Informação? Quem aqui fez curso de Arquitetura da Informação levanta a mão, de fato. Quantos fizeram curso de Design Sprint? Quantos fizeram curso de Agile? Lean UX? Estudar é muito bom, mas a gente tem que tomar cuidado com a… Gera briga o que eu vou falar, mas… O que certifica o padeiro é o pão, não o certificado. Então, estudem para aprender, nunca para ganhar o certificado.

(Salva de palmas da plateia)

Melina: Maravilhoso! Orgulho desse painel, gente!


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